Milésimos de segundo:

Sabia-se ali, no espaço que lhe confinava a vida, dentro de paredes velhas, quase não-brancas que lhe sabiam os desgostos. No sitio onde descansava os anos restava-lhe a solidão e a força que a idade lhe conferiu. Quase conseguiu convencer-me que os olhos concordavam com as palavras mas, como todas as coisas que nos tentam enganar, manifestou os sinais de quem não sabia ou não queria mentir. O passado importa. Trouxe-nos até aqui por isso, tem de importar. Sermos passado é a única certeza que poderemos ter. Ainda que se idealize o futuro, este, não mais é senão a utopia daquilo que queremos fazer com o que somos, com o passado. Caso contrário, quando negou o sucedido, não poderia nunca olhar para a fotografia de família que ainda conservava ao lado da cama. Aquela moldura era o objecto mais velho da casa e, coincidentemente, o único que subsistia intacto. Ali, no espaço que lhe confinava os sonhos e o futuro, olhava o passado através de uma fotografia e libertava-se da vida. Sim, o passado importa, no mínimo para nos desembaraçarmos daquilo que nos tornámos e, no máximo, para justificarmos o futuro latente em tudo o que poderá vir a acontecer.

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