Das qualidades:

Egoísmo é pensarmos somente em nós. Pensar em nós em primeiro e último lugar poderá ser a nossa grande defesa e, talvez, a grande fronteira entre sermos bons ou maus. Ser egoísta é a última porta que se abre quando nada mais temos para oferecer. É proteger o que somos e o que queremos.
Falo de mim. Escrevo para mim. Escrevo de mim. Penso apenas e só em mim. Sou egoísta porque falar sobre mim é a minha ultima defesa. Ser egoísta é a última coisa que tenho.

Dos desencontros:

Tantos que queriam ir e não puderam. Eu que podia ir e não fui. O mundo é mesmo isto: uma metade à procura da outra e ninguém se encontra.

Do aniversário (ou das coisas insignificantes):

Deixei de ter de mexer os lábios sempre que fingia cantar-te os parabéns em público e já não precisei de comer bolo só porque eras tu a fazer anos.
Há sempre alguma coisa boa em tudo o que de mau possa acontecer.

(Coisas insignificantes são ainda mais comuns)

I make lies all day to keep the pain away:

É bem provável que tenha dois corações. Dizes que alguém com dois corações corre o risco de tornar-se bipolar. Alguém com dois corações sofre a dobrar e ama pelas metades, tens razão, sim. O mais certo é, como repetes, acordar sempre a pensar com qual dos dois corações começar o dia. É tudo verdade, até quando dizes que o que me separa dos bipolares é o poder que ainda tenho em escolher que coração usar. Alguém com dois corações vai ser sempre incompatível com a vida e o mundo, também ouvi essa parte. E, talvez, se tivesses dito com as pessoas, também concordaria.

Trinta:

A coincidência de encontrar-te em coisas que julgava nunca vir a conhecer.

(uma mão sem cicatrizes a mostrar o futuro)

Ter esperança no destino e ter quem goste de nós:

Brindamos à vida e a tudo de bom que nos possa acontecer. Passamos o tempo a rir porque rir ainda é o melhor remédio, não pensar na vida depois da hora que se vive. Não me façam perguntas sobre amanhã, só quero que seja hoje. Não me perguntem o que farei daqui a algumas horas porque nem sei o que faço agora. Não me perguntem por amanhã porque eu não me pergunto nem por daqui a três horas. Só quero pensar naquilo que a vida me pode trazer de bom, tão bom que me faça esquecer do tão mal que às vezes podemos estar. Dizem que amanhã é outro dia e eu toco no calor do sol e no sangue quente dos que estão à minha volta. Toco no melhor da vida. Toco como se não houvesse mais nada, como se não houvesse vida para além daqui a uma hora. Vejo o sol a nascer sem saber se dormi. Durmo sem saber se amanhã estará sol. Acordo daqui a uma hora e a vida começa outra vez.

Antes da escuridão:

Em frente aos meus olhos, uns olhos tristes. Uma pessoa que me custa olhar. A realidade é triste. Triste vida. Triste de quem tem de olhar uns olhos tristes todos os dias. O avô dá-lhe a mão e ela descansa o olhar que tem um peso de querer atenção. A mãe e o pai fumam. A tia fala alto e sorri. 4 cafés e a conta, por favor. Uns óculos escuros e um caminho. A realidade é triste, uns olhos nunca mentem e uns óculos tapam sempre uma parte da nossa realidade. Não consigo deixar de pensar nos olhos mais tristes de que tenho memória. Revejo a minha vida - que sorte tenho eu! - os problemas estão comigo, as pessoas desaparecem mas nada detem os meus olhos felizes (nada nem ninguém).

You're not the reason I'm leaving:

Não fui eu que quis. Se Deus existisse, saberia que nunca quis ir embora. Falaram comigo no imperativo e usaram o verbo ir contra a minha vontade. Se ao menos eu tivesse o talão que se usa nas lojas para se reclamar no prazo de quinze dias ía lá e dizia que já não queria estas pessoas.

Os meus amigos têm mais sensibilidade que os teus:

Num dos poucos momentos de silêncio dentro daquele carro, olhou-me pelo espelho retrovisor e, nesse olhar, coube um abraço, o mundo e a vida toda lá dentro.

Dos carros que assustam:

Noventa e oito anos e a sinceridade toda na voz. Tinha vontade chorar e medo de ficar sozinha. Conformou-se e disse-me que com noventa e oito anos já não tinha idade para mandar em nada nem em ninguém. Agarrou-me a mão e fechou os olhos - já não estava sozinha.

Meia volta, volver!

O momento em que prolongavas a continência para que eu não pudesse desfazer a minha e ficavamos ali, a conter o riso e a olhar um para o outro como se soubessemos que ia haver sempre amanhã.

Faz-me revirar o tempo:

Falam-me da tua vida como se te tivessem conhecido e, sem saberem, estão a falar da minha também. Entre o que dizem e as coisas que inventam, não resisto a sorrir porque sobre ti, só eu soube sempre tudo e isso, ninguém me pode matar.

What's real?

A faixa 5 enquanto estou a almoçar. Nós, outra vez, como se tudo fosse tão certo, previsivel e real. A faixa 5 enquanto conduzo. Nós, sempre nós. O verão todo. Todos os verões. A faixa 5, como se fosse o inicio e o final de tudo. A faixa 5, de suspiro a sufoco. Rápido, como se fosse fogo a desbravar encosta acima. A faixa 5, que nos junta e separa com a mesma facilidade com que se dizem as horas. Nunca hei-de ouvir a faixa 5 sozinha. Prometo que não me vou magoar desta vez.

Stay with me:

Se pudesse apagava tudo. A chamada e o impacto. O sangue e os gritos. As sirenes e a pressa. A raiva e o medo. Apagava tudo e repetia o momento de ter a tua mão a agarrar a minha com a força de quem não queria estar ali e os teus olhos a dizerem-me tudo o que eu sempre soube.

Hiperbole:

Já disse mais de mil vezes que gosto de ti.

Message in the bottle:

Desaguei as palavras. Que o sol as queime como queima a minha pele. Não sou de letras e tenho o mar todo a rebentar dentro de mim. Sou assim, alterno entre a maré alta e a maré baixa com a mesma rapidez com que as ondas podem rebentar à beira mar e avançar pelo areal. A rebentação é imprevisível, eu também. Nunca sei o quanto vou avançar ou recuar mas, ao contrário do mar, o tamanho da minha onda não depende da força do vento. O mar ensina que as ondas se tornam mais regulares à medida que se afastam da tempestade, as pessoas chamam a isso tempo. Que o tempo me afaste das tempestades e me devolva as palavras, caso contrário haverá sempre, algures no mar, uma garrafa a flutuar perdida, sem nenhuma mensagem. (quão triste pode ser viver sem conseguir dizer nada?)