Te echo de menos:

Já não sei se esperar é um ato de coragem. Não sei se o que sobra é amor ou um instinto de sobrevivência muito apurado. O tempo faz-nos velhos e é por isso que toda a gente foge dele. A vida morre, as pessoas mudam mas o tempo nunca acaba. O cabrão do tempo que faz-nos mudar de planos, que adia a nossa vida porque o momento ainda não é o certo. Esse gajo despersonificado que faz-nos ouvir pedidos de desculpa pelos atrasos. E eu espero sem saber de que espera sou feita. Espero porque há dias que tenho tempo para esperar. Espero porque o mundo é tão pequeno e há tanta gente. Tanta gente a levar tristezas dentro. E esperas. E alegrias. Tanta gente num mundo tão pequeno à espera de tanta gente. Esperamos uns pelos outros e pode acontecer aparecer-nos alguém melhor do que aquilo que esperávamos. Pode acontecer que nesse ato solitário (ou corajoso?) de esperar possamos refazer-nos e mudar também aquilo pelo qual esperamos. E então, nesse momento, já não esperamos por aquele que nos fez esperar mas por este que nos diz que há-de chegar. E esperamos porque o tempo faz-nos velhos e nós não o queremos apanhar. Foge dele.

Da psicanálise:

Confundiram o meu ato falhado por uma falha de atenção e, no entanto, não esqueço que isto foi uma manifestação reprimida.

Eu sou Deus:

Isto de ter uma grande auto-confiança não é o resultado de muitos sucessos. É uma certeza muito evidente de que serei sempre a primeira e última pessoa com quem posso realmente contar. É saber que o meu corpo não se há-de separar de mim. É ter noção de que, aconteça o que acontecer, nunca deverei satisfações a ninguém senão a mim.
No fundo, isto de ter uma grande auto-confiança resulta de um fracasso e de uma habilidade parca de acreditar que serei boa o suficiente para manter os outros comigo o tempo todo.

Sobre o talento:

Ver a Miley Cyrus na The Backyard Sessions cala a boca a tanta gente.

Ser bombeiro no inverno:

Poucos conhecem o desespero. É uma coisa tão forte que eu espero que poucos o tenham visto. O desespero e a angustia têm muita força. Não há desespero nenhum na morte em si. Não é desesperante morrer-se numa cama ou numa sala de operações. O desespero cresce pela dor que vemos sentir à nossa frente.

O desespero vem do sangue. Na bala que ficou dentro do corpo. De alguém que nos pede para morrer. O desespero vem dos gritos. Em pais que pedem milagres. Nas costelas partirem debaixo das mãos durante uma reanimação. O desespero vem das palavras. Das más e das feias, mesmo quando as últimas são sempre de amor. No desespero também há amor. Camuflado, escondido mas o amor continua lá. O desespero é a violência. É um corpo sujo de nódoas negras. É uma corda ao pescoço e nada mais a fazer. É o choro dos outros e nada mais a fazer. O desespero da negação quando já não há nada a fazer. É no início da vida já existir uma sentença de morte. O desespero é quase sempre o fim. O desespero é pegar na caçadeira e matar o melhor amigo por causa de um jogo de futebol. É estar no mesmo metro quadrado com alguém que matou outra pessoa minutos antes. O desespero é à beira da morte recusar uma ida ao hospital porque não temos dinheiro para pagar o regresso a casa.

Poucos conhecem o desespero como os bombeiros conhecem. Mais do que isso, poucos têm noção do desespero que os bombeiros conseguem ver. Ninguém sai de um serviço a olhar o mundo da mesma maneira porque o desespero está lá. E é no desespero que ligam a pedir ajuda, é no desespero que aparecem, é com o desespero que lidam e é o desespero que levam para casa.
É por isso que todos podem ser bombeiros mas poucos aparecem por lá.


5 de Dezembro:

Nunca te esqueço. Estás entre os dias mais importantes e os mais bonitos da minha vida.
Hei-de ser sempre uma parte de ti. Que estranha, esta sensação de ver-te chegar e, ainda hoje, conseguir voltar a sentir tudo o que senti há uns anos.
5 de Dezembro, trato-te como pessoa e tirava dez anos da minha vida para ver-te outra vez. Sei que não voltas e ao mesmo tempo continuas por aqui.
Obrigada pelas memórias.

Como é que se cresce?

Não é o que se vive, é o que se vê.