Ser bombeiro no inverno:

Poucos conhecem o desespero. É uma coisa tão forte que eu espero que poucos o tenham visto. O desespero e a angustia têm muita força. Não há desespero nenhum na morte em si. Não é desesperante morrer-se numa cama ou numa sala de operações. O desespero cresce pela dor que vemos sentir à nossa frente.

O desespero vem do sangue. Na bala que ficou dentro do corpo. De alguém que nos pede para morrer. O desespero vem dos gritos. Em pais que pedem milagres. Nas costelas partirem debaixo das mãos durante uma reanimação. O desespero vem das palavras. Das más e das feias, mesmo quando as últimas são sempre de amor. No desespero também há amor. Camuflado, escondido mas o amor continua lá. O desespero é a violência. É um corpo sujo de nódoas negras. É uma corda ao pescoço e nada mais a fazer. É o choro dos outros e nada mais a fazer. O desespero da negação quando já não há nada a fazer. É no início da vida já existir uma sentença de morte. O desespero é quase sempre o fim. O desespero é pegar na caçadeira e matar o melhor amigo por causa de um jogo de futebol. É estar no mesmo metro quadrado com alguém que matou outra pessoa minutos antes. O desespero é à beira da morte recusar uma ida ao hospital porque não temos dinheiro para pagar o regresso a casa.

Poucos conhecem o desespero como os bombeiros conhecem. Mais do que isso, poucos têm noção do desespero que os bombeiros conseguem ver. Ninguém sai de um serviço a olhar o mundo da mesma maneira porque o desespero está lá. E é no desespero que ligam a pedir ajuda, é no desespero que aparecem, é com o desespero que lidam e é o desespero que levam para casa.
É por isso que todos podem ser bombeiros mas poucos aparecem por lá.


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