Quebramos os dois (é quase pecado o que se ignora):

Tu não sabes porque tu não vês. Tu não tens porque tu não dás. Tu vais porque foges. Adeus e até um dia. Adeus, vemo-nos por aí. Eu não toco com medo de partir. Não dou o nó nem desfaço o laço. Eu não digo porque não sinto. Não me despeço porque estou. Bom dia. Olá outra vez.
Tu não estás mas eu estou. Tu não vais mas eu vou. Tu transformas e eu mudo. Tu queimas e eu apago. És de tempos mas eu de compassos. Tu és de marés e eu sou de luas. Eu sou quem parte mas és tu quem se esconde.
Alguém que toca. Outro que foge. Alguém que conquista e outro que seduz. Um que quebra e outro que abre. Um que se despe com o intuito de amar-te. Diz o meu nome, quero-te outra vez.

Da tragédia um pouco maçadora de teres morrido:

A verdade é que a vida continua depois e apesar de tudo. As dores arrumam-se e as memórias vão surgindo intermitentes com a saudade. Há suspiros dentro de um silêncio e um olhar vago porque a vida de todos os dias retoma o seu dia. Engano-me voluntária e conscientemente, faço da tua morte um problema teu, uma mágoa tua. De mim não levaste nada, resigno-me a amar-te porque no dia que morreste eu poderia ter feito tudo, até mesmo esquecer-me de desamar-te.

A Ivone e eu:

Às vezes acobardo-me nesta ideia de pensar que minto-te porque a verdade deixar-te-ia ainda mais triste. Tenho mais jeito para ser tua amiga para o bem do que para o mal. Há dias em que a tua felicidade é um avião com um caminho seguro para casa, é uma gargalhada que herdaste para colmatar uma falta que eu não posso comprar-te nem substituir-te. Nestes dias, em que a minha felicidade não consegue abraçar a tua, eu espero-te com uma inquietude que nunca consigo habituar-me. Eu espero que tu deixes de esperar porque a ilusão é um gatilho preso capaz de matar. 

Try a different view, see the line outside of you:

Confundimos as pessoas com as suas causas. As atitudes com os comportamentos. Confundimo-nos no essencial porque o que está à vista não é aquilo que vemos. Confundimos a maternidade com o parto, o sexo com o amor e julgamos sempre que o que vemos é tudo o que está à vista. Confundimos a escola com a educação, o conhecimento com a inteligencia, a justiça com a prisão. O que está à vista não é o que está para ser visto mas confundimos o que já vimos com aquilo que falta ver. Confundimos as partes pelo todo, a guerra com a religião, o poder com a independência. Somos vistos mas queremos ver primeiro. Olhamos mas não vemos. E quando vemos não reparamos. Confundimos o odio com a inveja e os julgamentos com as opiniões. Confundimos os juízos de valor com os preconceitos, a morte com a dor e as palavras com as orações. Confundimo-nos na fé porque a esperança vem primeiro. Confundimo-nos na essência porque o que não se vê vem depois. Confundimos as promessas com os compromissos e as regras com a ética. Não veremos acima de nós porque procuramos as respostas sem sabermos as perguntas. À vista desarmada, o mundo é aquilo que nos permitirmos ver. Sem lentes, sem zoom, sem medidas. Confundimos o erro com o pecado, a urgência com a emergência. Confundimos, na linha ténue dos dias, o infinito com o futuro, o prazer com o gosto porque necessidade e vontade não são iguais. Vivemos de frente para o mundo e ainda assim morreremos sem ver nada. O lusco fusco a confundirmos o dia da noite. O dia aqui e a noite aí, um par de olhos a iludir-nos a vida. Confundimo-nos nos passos, na vertigem de cada decisão e na solidão dos dias. Confundimos o que vemos com o que sentimos porque a realidade está diante de nós mas baralhamo-nos com as emoções à flor da pele. Confundimos o ser com o estar porque a fugacidade do tempo não nos deixa ver para além de nós. Sem metáforas, sem eufemismos, sem pleonasmos. Não te iludas, não te confundas nem caías nesse cliché de pensar que os olhos são o espelho da alma porque eles só apontam o caminho.

Turn on:

No ginásio, conheço as pessoas pelas pernas.

Eu acusei-me e defendi-te com unhas e dentes:

A mentira não morre. Há portas que nao se fecham e verdades que nao se abrem. Escondo o jogo porque tenho trunfos que nao me permito mostrar.