Try a different view, see the line outside of you:

Confundimos as pessoas com as suas causas. As atitudes com os comportamentos. Confundimo-nos no essencial porque o que está à vista não é aquilo que vemos. Confundimos a maternidade com o parto, o sexo com o amor e julgamos sempre que o que vemos é tudo o que está à vista. Confundimos a escola com a educação, o conhecimento com a inteligencia, a justiça com a prisão. O que está à vista não é o que está para ser visto mas confundimos o que já vimos com aquilo que falta ver. Confundimos as partes pelo todo, a guerra com a religião, o poder com a independência. Somos vistos mas queremos ver primeiro. Olhamos mas não vemos. E quando vemos não reparamos. Confundimos o odio com a inveja e os julgamentos com as opiniões. Confundimos os juízos de valor com os preconceitos, a morte com a dor e as palavras com as orações. Confundimo-nos na fé porque a esperança vem primeiro. Confundimo-nos na essência porque o que não se vê vem depois. Confundimos as promessas com os compromissos e as regras com a ética. Não veremos acima de nós porque procuramos as respostas sem sabermos as perguntas. À vista desarmada, o mundo é aquilo que nos permitirmos ver. Sem lentes, sem zoom, sem medidas. Confundimos o erro com o pecado, a urgência com a emergência. Confundimos, na linha ténue dos dias, o infinito com o futuro, o prazer com o gosto porque necessidade e vontade não são iguais. Vivemos de frente para o mundo e ainda assim morreremos sem ver nada. O lusco fusco a confundirmos o dia da noite. O dia aqui e a noite aí, um par de olhos a iludir-nos a vida. Confundimo-nos nos passos, na vertigem de cada decisão e na solidão dos dias. Confundimos o que vemos com o que sentimos porque a realidade está diante de nós mas baralhamo-nos com as emoções à flor da pele. Confundimos o ser com o estar porque a fugacidade do tempo não nos deixa ver para além de nós. Sem metáforas, sem eufemismos, sem pleonasmos. Não te iludas, não te confundas nem caías nesse cliché de pensar que os olhos são o espelho da alma porque eles só apontam o caminho.

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