Homossexualidade - Quando os agressores são vitimas:

Por esconder-se, o sentimento vira preconceito e o amor torna-se refém da própria discriminação.

Eu queria conseguir sair sem cinzas na despedida:

Consenti-me à felicidade. Por nunca se imaginar, a despedida fingiu-se todos os dias. Em cada viagem e em cada regresso. Nos abraços todos que ficaram por dar e nos impulsos desmedidos. Eu quis-nos bem, quis que a vida perdurasse na adrenalina que nos juntava. Nós fomos os lugares comuns na forma e nos gestos. Existimos para além de nós porque a tranquilidade e o caos correm nas margens do mesmo rio. Vivemos sempre à margem, sem procurar o que estava por dentro. Partilhámos o sono e o pão duro, a mais intima das intimidades. Eu dei-me toda à felicidade, consciente de que a eternidade são os momentos, lúcida de que para sempre é o agora a acontecer. Eu assumo as falhas e as loucuras, fui eu quem baixou os braços enquanto bebia do frio. Fui eu quem  sentiu o tempo a consumir devagar. Há verdades que nascem vazias.  O comboio, quando passa, não apita para mim. É para nós, para sabermos que está a passar. Valemos mais do que a vida quis. Mais do que a felicidade deixou. Valemos pelas verdades que conhecemos e todas as que fizemos nascer.

No lado quente da saudade:

O que sentimos revela-se mais nas despedidas do que nos reencontros.

Tudo quanto fazemos é a cópia imperfeita do que pensámos em fazer:

As expectativas são facilmente defraudáveis. A fantasia deixa-nos imaginar todos os cenários, antever todos os gestos e preparar todos os diálogos. Ignoramos a realidade, como se a ficção abrisse espaço para uma ilusão fácil de comprar. Caminhamos sempre o mais à direita possível, como se a segurança dependesse apenas de nós. Não depende. Há sonhos que só são verdade quando acabam. Abandonar uma ilusão é melhor do que encontrar uma verdade mas mesmo assim, insistimos em acreditar em tudo o que não podemos tocar.

Por trás de uma ofensa, há sempre uma insegurança:

As pessoas indignaram-se, fizeram protestos na internet, lançaram vídeos que se tornaram virais e, de repente, decidiram que os piropos devem ser criminalizados.
Depois, tentaram estabelecer uma linha entre as piadinhas engraçadas e as bocas ordinárias, misturaram o feminismo e acrescentaram assédio de rua.
No fim, aparecem mulheres indignadas a levantarem ondas, feitas virgens ofendidas, como quem assume que preferem ouvir um "ainda dizem que as flores não andam..." do que um "fodia-te toda!".
E eu, continuo a achar que o que devia ser criminalizado era a insegurança das mulheres porque, isso sim, é um verdadeiro atentado à dignidade humada.

Por baixo de cada coisa há um nome:

Teresa devia ter percebido porque é que a vida se suicidava todos os dias, da mesma maneira que pressentiu que um compromisso podia ser um sacrifício. Na falta de coragem, Teresa perdia o conforto de saber que todos os caminhos eram sem retorno e que, dali para a frente, todo o destino era uma montanha dificil de transpor. Respirar deixava de ser um ato involuntário, Teresa sabia-o. Teresa era dotada dessa consciência exacerbada, de uma resiliência quase inata e de um medo que a induzia à culpabilização. Eram as mãos que agarravam todas as coisas que Teresa não chegava a tocar mas os gestos estavam lá, à vista desarmada, nus de qualquer sentido. Teresa era ridícula de tão submissa, sozinha de tanta companhia, presa de liberdade. Teresa devia ter percebido porque é que o amor é aprendido todos os dias, da mesma maneira que intuiu que a paixão pode cegar qualquer compromisso. Teresa distraia-se da felicidade e, também por isso, odiava-se todos os dias. No deslumbre de cada promessa podem caber milhares de traições. Teresa condensava a culpa e o desejo,  o empenho de destruir tudo o que era seu. De tão ridícula ficou sozinha. De tão sozinha tornou-se presa. De tão submissa perdeu a liberdade. Teresa sentia-o, ainda que não o dissesse em voz alta, sabia-o. Teresa devia ter percebido que quando a vida se suicida todos os dias é porque estamos a fazer tudo aquilo que gostaríamos que fizessem por nós. Teresa sabia-o mas nunca o percebeu.