Eu queria conseguir sair sem cinzas na despedida:

Consenti-me à felicidade. Por nunca se imaginar, a despedida fingiu-se todos os dias. Em cada viagem e em cada regresso. Nos abraços todos que ficaram por dar e nos impulsos desmedidos. Eu quis-nos bem, quis que a vida perdurasse na adrenalina que nos juntava. Nós fomos os lugares comuns na forma e nos gestos. Existimos para além de nós porque a tranquilidade e o caos correm nas margens do mesmo rio. Vivemos sempre à margem, sem procurar o que estava por dentro. Partilhámos o sono e o pão duro, a mais intima das intimidades. Eu dei-me toda à felicidade, consciente de que a eternidade são os momentos, lúcida de que para sempre é o agora a acontecer. Eu assumo as falhas e as loucuras, fui eu quem baixou os braços enquanto bebia do frio. Fui eu quem  sentiu o tempo a consumir devagar. Há verdades que nascem vazias.  O comboio, quando passa, não apita para mim. É para nós, para sabermos que está a passar. Valemos mais do que a vida quis. Mais do que a felicidade deixou. Valemos pelas verdades que conhecemos e todas as que fizemos nascer.

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