Nunca o fim - se vivemos é para não matar:

Náo há nada que acabe. Viramos costas mas a vida continua. Se voltarmos, é para continuar. Não há recomeço nem fins. Nunca paramos, o tempo empurra-nos e força-nos a continuar. Nem a corrente do rio para, corre porque há essa força que subsiste. Para cada principio existem inumeras possibilidades mas nunca o fim. Não se matam memórias, não se apaziguam as saudades. A vida não se consome, é impossivel lutar com o tempo porque ele continua. Não se sepultam os corpos que nos abraçaram. Não há fim à vista para as viagens que começamos. Apesar de todos os apesares. Depois de todas as reviravoltas.  Durante os altos e baixos. Para lá de qualquer finalmente. A vida continua, sem promessas mas também sem nenhum fim traçado. Perduramos no tempo, seguimos viagem, extendemo-nos para alem de todas as circunstancias. Para cada inicio, uma estrada com infinitos caminhos. Só o tempo pode parar-nos e ele nunca acabe. Não te deixes morrer.

Sinto muito:

Queria dizer-te que sinto muito. Eu também me arrependo dos erros que jurei nunca cometer. Já caí nesses dias maus e de vez em quando ainda os sinto. Sinto muito. São as escolhas que nos decidem; as boas que nos devolvem a vida e as outras, que nos matam para nascermos outra vez. A felicidade não tem ciência nenhuma, é um caminho aberto para o futuro. Cada um sabe a força com que lhe rebenta o mar. Ve-lo não é o mesmo que estar lá dentro e todos sabemos que muitos enjoam.  E eu sinto muito. Sinto tudo. O passado que aprendi a não esquecer, o presente onde quero sempre estar e o futuro como meta de todas as utopias em que me deixo envolver. Queria dizer-te que sinto muito. Eu tambem sou feita de falhas, sei que o coração está exposto ao sangue, o ponto de partida e de chegada de todas as coisas mas ele bate para nos lembrar que estamos vivos.

A cada um o que é seu:

O problema não és tu. Quando amas e não tens correspondência. Quando ajudas e não vês retorno. Quando estendes a mão e te dão com os pés. Não és tu. Quando te mentem, não há como ficar triste com atitudes que não são tuas. Não és tu quem tem de sentir-se mal por pagar as contas e ir trabalhar todos os dias. O problema não está em ti quando te esforças e falhas. Não está em ti. Quando fazes o que mais ninguém quer. Quando acabas o que os outros começaram. Quando emprestas e os outros te roubam. Não és tu, não te martirizes por problemas que não são teus. Não se ama demais. Não se acredita demais. A culpa mais pesada de carregar é a que não nos pertence. Livra-te disso.

Se tropeçar, é nos teus braços que quero cair:

O mundo dá voltas enquanto dormimos. Quando abrimos os olhos, o céu já mudou de cor e o chão já não é o mesmo. A guerra planeia-se durante a noite e a paz está sempre no dia que acorda a seguir. O mundo dá muitas voltas, as pessoas mudam e amam-se sempre que aprendem a olhar as estrelas porque os sonhos vivem dentro da nossa cabeça. É o amor que revoluciona o mundo e ele dá tantas voltas. 

A vida não é para todos:

A vida não é para todos. Há quem não esteja disposto aceitar a alegria de viver nem as curvas durante o caminho. Há quem não tenha aprendido a andar em ponta dos pés e se queixe das dores e mazelas de um dia de trabalho. A vida não é para todos. Não é para os conformistas nem revolucionários porque nos extremos, o entusiasmo dos detalhes, desvanece. A vida é para os que aceitam a felicidade com as duas mãos, sem desconfiar do que aí vem. Sem olhar por cima do ombro, sem pensar que a esmola está a ser muita. Há quem viva com o fuso horário de outro mundo, em desencontro com as circunstancias do tempo. Todos nascem para a vida mas a vida não é para todos. Insisto nesta ideia fascista todos os dias, talvez porque, mesmo estando mal disposta, continuo a achar que isto de viver é bonito para caraças. Há quem não esteja disposto a ver isso e por isso não mereça a vida que tem.

Entre o céu e a terra:

Fizeram de ti outra pessoa e eu proibo-me de ter saudades de quem nunca conheci. Calo-me das mentiras e afasto-me de tudo o que magoa. Eu não sei regressar aos sítios onde fui feliz, ainda cheguei a pensar que que um dia seria mais fácil mas o esforço mora em mim todos os dias. Quando tenho saudades, é pela recordação de nos termos um ao outro, da maneira como usavas as minhas palavras a teu favor. Os segredos que guardo são vidros a cortarem-me as mãos. Evito constrangimentos, as paragens momentâneas de pensamento nos corredores do supermercado. Evito os rasgos no coração  e as lembranças de noites com sabor a martini. Gostava de desprender-me disto porque não há sensação melhor do que a consciência a aliviar-se de um peso mas tenho medo, tanto medo. Vendi-me a uma profecia barata que quis acreditar. Desculpa-me, eu não posso seguir-te.

Sabotar o tempo é esquecermo-nos da vida:

Não penses. Bloqueia-te e resiste. Pinta as unhas mas não te preocupes com a acetona. Não penses no desmaquilhante que vais gastar. O teu melhor vestido continuará a ser o mais bonito mesmo que ninguém te veja.  É agora que a vida acontece. Desprende-te do medo da noite; das palavras que ouves do outro lado da rua, sempre que passas por lá; dos gatos pretos que cruzam o teu caminho.  O que será de ti se não conseguires libertar-te de todas as coisas que não são tuas? É deprimente reviver o passado todas as manhãs mas não queiras a ansiedade que a previsão do futuro oferece. É perigoso viver num tempo que não é nosso. É hoje e agora, é aqui que o mundo se desfaz e que a vida começa. Se não saíres de casa todos os dias à pressa, com medo de te atrasares para a vida; se não ouvires com atenção as regras do jogo que tentas jogar, o que será de ti? 

Estou de partida mas o importante é ficares bem:

Apesar de tudo estar igual, está tudo diferente. Há coisas que eu lamento mas já não me revoltam, possivelmente por sensatez ou falta de força. Quem desaparece acaba por esquecer e a distância afasta sempre as pessoas. Não posso pedir desculpa mas é verdade que fui embora cedo demais, como todas as pessoas importantes têm ido da minha vida. Eventualmente serei diferente e fria mas não consigo estar arrependida. É provável que fique desiludida com a loucura que me falta mas sobretudo por não me apetecer voltar.

A verdade da mentira:

De toda a malvadez que possa haver no mundo, a mentira é provavelmente o defeito com que lido melhor. Nunca me sinto traída pela mentira e já me cruzei com tantas. Nunca traí pela mentira e já disse tantas. Quem me diz mentiras, nunca mente a mim. A mentira é só um meio para que quem mente se sinta bem. É por isso que aceito as mentiras com a mesma naturalidade que aceito as verdades. Uma espécie de serviço publico, uma oportunidade que dou aos outros de me contarem a novela que andam a viver. Verdade ou mentira, as duas tem o mesmo peso. É o valor que lhe damos que as torna mais ou menos importantes. Há mentiras que nos protegem muito mais do que qualquer verdade. Há confissões que doem muito mais que qualquer mentira. Muitas vezes, dizer-se a verdade é um ato egoísta porque significa apenas que queremos dividir a angústia que sentimos e partilha-la  com o outro, cobardemente. Prefiro sempre uma mentira a uma verdade que alivia. Quem tem tanta necessidade de dizer a verdade, provavelmente sente culpa de todas as mentiras que disse. Sempre que somos honestos connosco, não há mentira que abale nem verdade que mude.  As mentiras são só a imagem que cada um idealiza de si. Não é o fim do mundo nem nenhuma facada nas costas. Que não se odeie a mentira porque ela é uma parte inevitável do caminho, tal como a verdade. Saber a intenção que pomos em cada coisa e dormirmos tranquilos com a nossa parte é o quanto basta porque o mundo é dos que conhecem a verdade dentro de si.

Tu nunca foste de voltar atrás:

A vida é feita de contratempos. O teu regresso foi simultâneo com o meu mas eu aterrei noutro lugar. Um desencontro mais ou menos feliz. Uma felicidade mais ou menos honesta. Tu sabes o que te reservo e eu conheço o que tens para mim. A tua mão já foi lida e o mapa astral está traçado. As estrelas dizem que te quero sempre bem porque não me desfaço dos momentos. Lembro os bons, guardo os maus mas nunca me esqueço de quem me fez feliz. Porventura, estratégia do destino, fazer do teu regresso a nossa distancia, logo agora que tu vinhas para ficar. A ironia é cúmplice do tempo, os dois acusam-nos de usurpação e profanação da vida mas eu, que gosto de reger-me pela presunção da inocência, recuso a sentar-me no banco dos réus. Confesso, transgredimos a felicidade mas foi um crime que prescreveu. Uma honestidade completamente absolvida.

Foi Deus:

Não sonhas com quase nada e desejas muito pouco mas eu entro em todas as tuas esperanças e estou em cada linha das tuas orações. E eu, que sou uma agnóstica crente em todos os que têm fé, emociono-me sempre com a convicção das tuas palavras sempre que pedes a Deus que me guarde e proteja. Eu, que sou agnóstica, nunca ousei dizer-te que não existe porque tu acreditas e há coisas tão simples quanto isto: sempre que acreditamos, torna-se verdade. 
Tenho medo que não saibas que nós somos o que mais amo e, de alguma forma, faço de ti o meu Deus porque é em ti que acredito e que a minha fé recaí. Eu, que sou agnóstica, não me consigo perdoar por cada dia que passo longe de ti. Tu estás acima de todas as coisas, porque não há poder maior do que a paz que me dás. Agnóstica como sou, desafio o teu Deus quando me entregas à sua vontade e, a verdade é que ganho sempre porque o meu Deus existe e és tu.

nA tua vida vale tudo:

Há felicidades que não morrem. São uma caixa que se abre para o mal, o antídoto para o veneno que corrói por dentro. As felicidades tiram as nódoas mais difíceis e afrontam as dores mais teimosas. As felicidades são amores a baterem no peito, como um mar de tempestade, a lembrar-nos todos os dias que estamos vivos e é para isso que existimos. Que nunca te envergonhes de ser feliz e nunca tenhas medo de tentar. Não te martirizes com os erros que deste porque o choro não é a previsibilidade da tristeza, há quem faça lágrimas de felicidade. Para perdoar é preciso esquecer, que nunca esqueças isso porque só depois é que te podes encontrar. Lembra-te que o amor anda por aí e, a maior parte das vezes, é mais do que o expectável porque não há nada mais imprevisível que os afectos.

O melhor legado é a força:

As heranças são sinais traiçoeiros. Quando num corpo se vê o seu antecessor mas as marcas não foram feitas pelo mesmo caminho. O sofrimento é a pior das herança porque a amargura da vida é demasiado difícil de desfazer. Crescer na dor é uma infância triste a querer ser mulher, sem nunca conseguir. Nascer-se já derrotado de um património que nunca soube vencer. Não há como curar quem olha a vida sempre em agonia, que veja um fracasso a cada passo. A comiseração de quem nunca aprendeu a soletrar a alegria. A misericórdia de quem sobrevive da culpa montada por si e pelos seus. É de família, a tristeza pode ser hereditária por tradição. Os melhores pais são os que obrigam os filhos a serem felizes, são os que apresentam um espólio de armas desde a nascença, capaz de travar qualquer luta. São os que se recusam a criar uma vítima porque não se esquecem que foi um filho que planearam.  Os melhores pais são os que nunca admitem acobardamentos, são os que conseguem transmitir que a vida tem tanto de simples como de bom, que não se sujeitam a resignações porque sabem que dos coitadinhos da vida nunca rezou história.

Marta:

Marta é a memória que nao se perde e os fantasmas que me empresta. Marta é um dia devagar, como quem não quer chegar ao fim, uma tempestade solitária em alto mar. Chegar ao cume e querer descer. Marta, tu és o nome que não digo em voz alta com medo de esgotar. O universo a conspirar contra mim. Se deus existisse, Marta... Se deus existisse, saberia de cor as minhas saudades tuas. Saberia da dor que pressinto a chegar, a minha recusa persistente de fazer da tua ausência um habito. Marta, quantas vezes é que podemos dizer adeus? Eu faço-me de esperas mas não quero ir embora. A morte ganhou a tua cara, és tu, Marta, a assombrar a minha vida. Marta. Marta. Marta. O teu nome a ecoar em mim. A ebolição da sede de te ver. Conduzo os meus passos e abstenho a consciência da tua falta porque ainda há tanto caminho. Como é que me desprendo do que está morto? De ti, Marta? Tu que és o peso na minha voz que não quero suportar. Crucifico-me na angústia e o sangue deixa o meu rasto. Quero enterrar o passado mas o milagre a nascer és sempre tu, Marta.

Implora pela paz:

Os dias regressam todos amanha. Não adiar a vida. Não calar o desespero e, principalmente, não apertar o medo, para que possa ir embora. Hoje é só mais um dia para todos nós. Sempre que abres caminho para felicidade, aceitas o que corre em paralelo e te expõe a tudo o que queres evitar. Seguir a rota, ser feliz apesar de todas as tristezas e aceitar os cruzamentos naturais do percurso. Talvez um dia vires a vida do avesso e quando voltares aqui sejas mais feliz.

Trocar futuros por memórias:

Há sempre um momento que define quem queremos ser a partir dali. A vida são as circunstâncias que encontramos mas também é a nossa capacidade de aniquilar os impulsos mais sombrios e primitivos que vêm à tona. Quem somos é o intervalo entre a bala que se dispara e a arma que conseguimos pousar. E depois, há que aceitar o alivio e a mágoa com a mesma serenidade com que vislumbramos dois caminhos da mesma existência. O lapso de uma decisão pode encontrar o desmoronar da vida que outrora arquitetámos porque para a morte nunca há motivo. Quem mata, acaba sempre também por morrer. 

A morte é injusta mas a vida é merecida:

É a morte que me acorda todos os dias a lembrar-me que a vida existe e não são só três dias, é o tempo que conseguir vive-la a ser feliz paralelamente. Não é a morte que me faz viver mas é dela que fujo porque não a projeto no futuro, é um passado que vou deixando para trás. Sempre que corro para a vida, ressuscito um novo dia, com a mesma certeza que a morte já me habituou. É uma maratona dentro de mim, porventura um destino já traçado que faz da morte um rival que compete em vantagem. Adormeço descansada da morte do dia que passou. Acordo para a vida e concilio o cansaço que é correr todos os dias contra mim. Um dia, sei que vou perder para a morte mas até lá sou eu a impor-lhe a minha vida.

Touch my neck and I'll touch yours:

Tu merecias que eu te amasse. Parece que foi há muito tempo mas foi ontem, a vida está sempre a acontecer-nos e às vezes não me lembro de como tu me fazes bem. És quem melhor sabe ouvir-me e, também por isso, a única pessoa capaz de respeitar os silêncios. Talvez até te ame, porque tu merecias.

O milagre da vida não se repete:

As pessoas não se demoram nas alegrias. Vivem a felicidade à pressa e a antever todo o mal que aí vem. Repetem a tristeza todas as manhãs e, desenfreadamente, vivem dela durante o dia. Deixam que a mágoa se instale e que lhes arranhe por dentro até verem sangrar. As pessoas dão mais valor à tristeza do que à alegria e vivem com uma lucidez negra por cima. A tristeza é um animal que pede a melhor carne por isso, dão o corpo ao manifesto e violam-se consigo. Quem nos educa para os sentimentos, devia ensinar-nos que a tristeza é um estranho a quem nunca devemos pedir boleia, sob prejuízo de nos perdemos. Já ninguém quer saber da felicidade, já ninguém a vive. A coragem para multiplicar a dor de todas as manhãs inibe a alegria durante o dia. Feliz de quem ri sempre da mesma piada.

Sobreviver a uma despedida é aceitar o que aí vem:

É quando a despedida se aproxima que reparamos nos detalhes, como se o mundo fosse acabar dali a instantes e quiséssemos cristalizar todas as imagens possíveis. O melhor da despedida é sempre a saudade antecipada. Os sítios  por onde passei deixaram-me  sempre saudade e todos os laços trouxeram a dor que recusei sempre evitar. Acompanho à distância o que acontece noutras ruas e, de alguma forma, ainda vivo por lá. Ganhei uma cara para cada lugar e o desejo de que nunca lhes faltem sonhos para viver. Despeço-me com dor de um sitio para chegar a outro que nunca teria conhecido se não tivesse partido. Tenho saudades de todos e é por isso que sou de tantos lugares. Nada se esgota, aqui ou em qualquer outro lugar, nunca terei chegado ao final das minhas dores e das minhas alegrias.

É dos gestos que vivemos:

A frontalidade mata porque  é uma luta pela sobrevivência, um instinto demasiado feroz que valora um ego pequeno demais para provar do seu próprio veneno. A frontalidade, essa cabra com pernas, que se orgulha a toda a hora, faz demasiado estrago para o bem que assume. As palavras enterram esperanças e dissipam dúvidas, e a frontalidade apregoada, como se de uma louvação se tratasse, segue a ordem natural de tudo o que não é pensado. Destrói mais do que elogia e faz frente a qualquer tentativa sincera de honestidade. Diz-me que és frontal, que dizes tudo na cara. Diz que não te importas com aquilo que os outros pensam porque encolhes os ombros e fazes o que te apetecer.  Diz-me que não mudas por ninguém e sempre foste assim. És um herói  que escolhe armas para promover a paz e eu presumo-te inocente da vida que tens porque ninguém é capaz de travar guerras sozinho.

O amor é o que tu vês ao espelho:

Afoga a verdade e diz tudo o que quiseres ouvir. O amor vem da luta interior, ouviste? Caminha na terra batida mas procura a coragem de caminhar pela lama. Sobe pelas escadas, desce pelo elevador. Grita as vezes que forem precisas e aparece sempre que quiseres. Imagina tudo o que vai ser possível.  Mata o tempo em tua honra. O amor é perder a guerra mas ganhar a vida, ouviste?

Dia do pai (ou da mãe, tanto faz):

Existem coisas que não são mérito meu mas de quem me educa.

Dizem que a televisão portuguesa está cada vez pior:

A blogosfera é a minha casa dos segredos virtual.

Partir, aqui, para ficar:

O abandono pode ser o gesto mais complacente de termos por alguém. Há sonhos que nascem nas pessoas erradas ou vidas que se cruzam por engano. Até a bondade deve ser medida, com o peso que cada um pode carregar. No silêncio de cada abandono, há um tempo desabitado numa morada que se fez ilusão. Pode ser que um dia te faças homem e o teu passado não entoe dúvidas, talvez um dia tudo seja real e a vida seja um desenho perfeito das verdades incontornáveis. Um dia acordas e reparas que esta história é tua mas não foi escrita por ti e aprendes que saber inventar a felicidade é a melhor maneira de ser feliz.

Bez kontrolya:

Quando me perguntaram porque é que ia, não soube responder. Sabia apenas que tinha de ir e, só depois, quando cheguei a casa, é que me apercebi que a amizade é, acima de tudo, isto: Ir porque sim. Ir porque temos de ir. 
Não podemos não gostar de quem gosta de nós. Eu não podia faltar, tinha de ir. Apareci pelo convite mas fiquei pela amizade. A mesma que me tirou o pijama num domingo à noite. Fiquei porque também dependo da felicidade das pessoas que gostam de mim. 
Partilhei contigo a maior parte dos dias do ano durante tanto tempo mas só ontem descobri que o hábito de conviver contigo, tornou-se numa amizade. Depois, tudo ficou claro porque entendi que a frontalidade que às vezes me faz revirar os olhos é a mesma que me surpreende nos desabafos. Entendi que a teimosia que persiste em cada discussão é igual à teimosia de quem leva um objectivo até ao fim. Entendi que a forma mistura-se com o conteúdo mas, o que conta mesmo, é a força de quem acredita em si. 
Tu sopraste as velas e tudo ficou claro: Era domingo, eu tirei o pijama e estava ali, para ficar. 

Já 'tá. Já foi. Foi de morta:


A morte é uma saudade crónica. É a tristeza nos cuidados paliativos a longo prazo. Um diagnóstico inconclusivo. A morte é uma reabilitação modesta de um corredor que foi amputado a uma perna.
A morte, quando bem gerida,  torna a vida mais fácil porque os dias ficam simples e há no fim a tranquilidade que não nos permitimos ver antes disso. Foi a morte que me trouxe o impulso e fez-me virar a esquina sem ter medo do que está depois da curva. A morte não é uma puta, como tantos querem acreditar, é um comunista no poder a dar uma mão e a roubar com a outra e pode ser tão ambígua como a gestão de qualquer ministério portugues.
Foi a vida que me apresentou à liberdade mas foi a morte que me libertou. A ideia paradoxal de que a vida é uma sucessão de mortes, uma guerra sem precedentes com todos os feridos graves que ficam pelo caminho. A vida a ser a morte e, por isso, o seu antídoto.

Depois do dia da mulher, hoje voltou a ser o dia das pessoas:

O que mais gosto são as especificidades. São as diferenças que me levam a gostar tanto de homens e mulheres, é a essência do que é cada um. Muitas vezes, por trás de uma igualdade aclamada por uma mulher está uma condescendia escondida e é por isso que o dia das mulheres me assusta. Parecemos ávidas pelo poder e esta ambição (que pode ser tão traiçoeira) de chegarmos ao poder dos homens, em vez de criarmos um poder fundamentado em nós, pode acabar numa emboscada pela ânsia da igualdade. O caminho que o feminismo quer fazer é o o extremo oposto do machismo e isso tem tanto de incoerente como atemorizador. A luta é feita por pessoas que querem olhar de cima quando a verdadeira igualdade é hierarquicamente nivelada, com todas as desigualdades que a biologia determinou. Eu não quero uma igualdade que faça de mim um homem no lugar de um homem, tenho um trono só para mim.

Os conselhos que vos deixo:

A dor existe mas não se procura.

And casually confirm my fears that I've got nothing to give:

Não feches a porta, eu não sei o que sobrou. É verdade, o tempo passou por nós e eu não sei se a emoção de ver-te prevalece. O tempo desdobrado no tempo. A história que se construíu e o passado que perdura até aqui. Tu perdeste-te e eu insisto na ideia de que foste tu quem mais perdeu. A magoa não se apaga e nada mata mais que o arrependimento. Hoje sei que há um tempo para amar porque não se pode ressuscitar quem se matou. 

O que se leva da vida é a vida que se leva:

A tristeza é como o frio: psicológica.
Porque o frio existe mas quando o sentimos temos de acelerar o passo.

Je ne suis pas Charlie - Abuso de expressão:

Se eu quisesse ser extremista, diria que a França tem liberdade até para insultar.

Je ne suis pas Charlie - Uma espécie de contradição:

Morreram doze pessoas, senhores. Doze! A sério que é por isto que o mundo se emociona?
Os americanos invadiram o Iraque, destruíram o Afeganistão. Os extremistas  continuam a matar pessoas o tempo todo, sobretudo muçulmanos e não vejo estas ondas de indignação.
Esta história parece o 11 de Setembro. Não vejo este empenho e esta tristeza quando outras pessoas entram noutros países a matar. Quando os jihadistas executaram pessoas no Iraque, não ouvi ninguém dizer "Somos Todos Iraquianos".

Je ne suis pas Charlie - Uma especie de contradição:

Pessoas que se sensibilizam porque a liberdade de expressão não foi respeitada mas que moderam os comentários do blog.

Je ne suis pas Charlie - Uma piada só é piada quando as duas partes acham graça:

Com a mesma força que não entendo o ato terrorista, também não entendo o desrespeito e a xenofobia do jornal. O atentado é condenável mas carece de interpretação.
A França é o país europeu com mais muçulmanos. São mais de 6 milhões. A mesma França que chegou a proibir que as miúdas usassem véu na escola. A mesma França que tem níveis alarmantes de racismo e xenofobia. A mesma França que tinha um jornal que contribuía massiva e obsessivamente para a diferença. Um jornal que provocava de forma obstinada e insistente o direito pela liberdade religiosa. 
O ato terrorista é exagerado mas não sei até que ponto é que não poderia ser evitável porque apesar de todas as liberdades, não devemos criar condições que levem fanáticos a cometerem acções reprováveis a todos os níveis. 
O ódio não se promove só com tiros e bombas. Bonecos e palavras podem fazer o mesmo porque piadas são um discurso e os discursos levam a acções. A liberdade de expressão não pode ser um caminho para o desrespeito e a sátira não pode esconder a má fé.
Eu não sou Charlie Hebdo porque não sou a favor que a imprensa publique irresponsavelmente. Não sou Charlie porque não concordo com a liberdade de expressão que dá o direito de gozar com uma religião. Não sou Charlie porque representa um humor que em nada beneficia a igualdade. Talvez não seja Charlie porque sou sensata demais para pôr vidas em risco, porque não gosto de ironizar as crenças dos outros. Ou então, é só porque não sei desenhar mas eu não sou Charlie Hebdo.
Que as pessoas possam viver num mundo onde não se cala uma opinião discordante com tiros mas também que não sejam humilhadas gratuitamente em prol do humor ou de uma liberdade que não contempla todos.