Marta:

Marta é a memória que nao se perde e os fantasmas que me empresta. Marta é um dia devagar, como quem não quer chegar ao fim, uma tempestade solitária em alto mar. Chegar ao cume e querer descer. Marta, tu és o nome que não digo em voz alta com medo de esgotar. O universo a conspirar contra mim. Se deus existisse, Marta... Se deus existisse, saberia de cor as minhas saudades tuas. Saberia da dor que pressinto a chegar, a minha recusa persistente de fazer da tua ausência um habito. Marta, quantas vezes é que podemos dizer adeus? Eu faço-me de esperas mas não quero ir embora. A morte ganhou a tua cara, és tu, Marta, a assombrar a minha vida. Marta. Marta. Marta. O teu nome a ecoar em mim. A ebolição da sede de te ver. Conduzo os meus passos e abstenho a consciência da tua falta porque ainda há tanto caminho. Como é que me desprendo do que está morto? De ti, Marta? Tu que és o peso na minha voz que não quero suportar. Crucifico-me na angústia e o sangue deixa o meu rasto. Quero enterrar o passado mas o milagre a nascer és sempre tu, Marta.

Implora pela paz:

Os dias regressam todos amanha. Não adiar a vida. Não calar o desespero e, principalmente, não apertar o medo, para que possa ir embora. Hoje é só mais um dia para todos nós. Sempre que abres caminho para felicidade, aceitas o que corre em paralelo e te expõe a tudo o que queres evitar. Seguir a rota, ser feliz apesar de todas as tristezas e aceitar os cruzamentos naturais do percurso. Talvez um dia vires a vida do avesso e quando voltares aqui sejas mais feliz.

Trocar futuros por memórias:

Há sempre um momento que define quem queremos ser a partir dali. A vida são as circunstâncias que encontramos mas também é a nossa capacidade de aniquilar os impulsos mais sombrios e primitivos que vêm à tona. Quem somos é o intervalo entre a bala que se dispara e a arma que conseguimos pousar. E depois, há que aceitar o alivio e a mágoa com a mesma serenidade com que vislumbramos dois caminhos da mesma existência. O lapso de uma decisão pode encontrar o desmoronar da vida que outrora arquitetámos porque para a morte nunca há motivo. Quem mata, acaba sempre também por morrer. 

A morte é injusta mas a vida é merecida:

É a morte que me acorda todos os dias a lembrar-me que a vida existe e não são só três dias, é o tempo que conseguir vive-la a ser feliz paralelamente. Não é a morte que me faz viver mas é dela que fujo porque não a projeto no futuro, é um passado que vou deixando para trás. Sempre que corro para a vida, ressuscito um novo dia, com a mesma certeza que a morte já me habituou. É uma maratona dentro de mim, porventura um destino já traçado que faz da morte um rival que compete em vantagem. Adormeço descansada da morte do dia que passou. Acordo para a vida e concilio o cansaço que é correr todos os dias contra mim. Um dia, sei que vou perder para a morte mas até lá sou eu a impor-lhe a minha vida.

Touch my neck and I'll touch yours:

Tu merecias que eu te amasse. Parece que foi há muito tempo mas foi ontem, a vida está sempre a acontecer-nos e às vezes não me lembro de como tu me fazes bem. És quem melhor sabe ouvir-me e, também por isso, a única pessoa capaz de respeitar os silêncios. Talvez até te ame, porque tu merecias.

O milagre da vida não se repete:

As pessoas não se demoram nas alegrias. Vivem a felicidade à pressa e a antever todo o mal que aí vem. Repetem a tristeza todas as manhãs e, desenfreadamente, vivem dela durante o dia. Deixam que a mágoa se instale e que lhes arranhe por dentro até verem sangrar. As pessoas dão mais valor à tristeza do que à alegria e vivem com uma lucidez negra por cima. A tristeza é um animal que pede a melhor carne por isso, dão o corpo ao manifesto e violam-se consigo. Quem nos educa para os sentimentos, devia ensinar-nos que a tristeza é um estranho a quem nunca devemos pedir boleia, sob prejuízo de nos perdemos. Já ninguém quer saber da felicidade, já ninguém a vive. A coragem para multiplicar a dor de todas as manhãs inibe a alegria durante o dia. Feliz de quem ri sempre da mesma piada.

Sobreviver a uma despedida é aceitar o que aí vem:

É quando a despedida se aproxima que reparamos nos detalhes, como se o mundo fosse acabar dali a instantes e quiséssemos cristalizar todas as imagens possíveis. O melhor da despedida é sempre a saudade antecipada. Os sítios  por onde passei deixaram-me  sempre saudade e todos os laços trouxeram a dor que recusei sempre evitar. Acompanho à distância o que acontece noutras ruas e, de alguma forma, ainda vivo por lá. Ganhei uma cara para cada lugar e o desejo de que nunca lhes faltem sonhos para viver. Despeço-me com dor de um sitio para chegar a outro que nunca teria conhecido se não tivesse partido. Tenho saudades de todos e é por isso que sou de tantos lugares. Nada se esgota, aqui ou em qualquer outro lugar, nunca terei chegado ao final das minhas dores e das minhas alegrias.

É dos gestos que vivemos:

A frontalidade mata porque  é uma luta pela sobrevivência, um instinto demasiado feroz que valora um ego pequeno demais para provar do seu próprio veneno. A frontalidade, essa cabra com pernas, que se orgulha a toda a hora, faz demasiado estrago para o bem que assume. As palavras enterram esperanças e dissipam dúvidas, e a frontalidade apregoada, como se de uma louvação se tratasse, segue a ordem natural de tudo o que não é pensado. Destrói mais do que elogia e faz frente a qualquer tentativa sincera de honestidade. Diz-me que és frontal, que dizes tudo na cara. Diz que não te importas com aquilo que os outros pensam porque encolhes os ombros e fazes o que te apetecer.  Diz-me que não mudas por ninguém e sempre foste assim. És um herói  que escolhe armas para promover a paz e eu presumo-te inocente da vida que tens porque ninguém é capaz de travar guerras sozinho.