Sabotar o tempo é esquecermo-nos da vida:

Não penses. Bloqueia-te e resiste. Pinta as unhas mas não te preocupes com a acetona. Não penses no desmaquilhante que vais gastar. O teu melhor vestido continuará a ser o mais bonito mesmo que ninguém te veja.  É agora que a vida acontece. Desprende-te do medo da noite; das palavras que ouves do outro lado da rua, sempre que passas por lá; dos gatos pretos que cruzam o teu caminho.  O que será de ti se não conseguires libertar-te de todas as coisas que não são tuas? É deprimente reviver o passado todas as manhãs mas não queiras a ansiedade que a previsão do futuro oferece. É perigoso viver num tempo que não é nosso. É hoje e agora, é aqui que o mundo se desfaz e que a vida começa. Se não saíres de casa todos os dias à pressa, com medo de te atrasares para a vida; se não ouvires com atenção as regras do jogo que tentas jogar, o que será de ti? 

Estou de partida mas o importante é ficares bem:

Apesar de tudo estar igual, está tudo diferente. Há coisas que eu lamento mas já não me revoltam, possivelmente por sensatez ou falta de força. Quem desaparece acaba por esquecer e a distância afasta sempre as pessoas. Não posso pedir desculpa mas é verdade que fui embora cedo demais, como todas as pessoas importantes têm ido da minha vida. Eventualmente serei diferente e fria mas não consigo estar arrependida. É provável que fique desiludida com a loucura que me falta mas sobretudo por não me apetecer voltar.

A verdade da mentira:

De toda a malvadez que possa haver no mundo, a mentira é provavelmente o defeito com que lido melhor. Nunca me sinto traída pela mentira e já me cruzei com tantas. Nunca traí pela mentira e já disse tantas. Quem me diz mentiras, nunca mente a mim. A mentira é só um meio para que quem mente se sinta bem. É por isso que aceito as mentiras com a mesma naturalidade que aceito as verdades. Uma espécie de serviço publico, uma oportunidade que dou aos outros de me contarem a novela que andam a viver. Verdade ou mentira, as duas tem o mesmo peso. É o valor que lhe damos que as torna mais ou menos importantes. Há mentiras que nos protegem muito mais do que qualquer verdade. Há confissões que doem muito mais que qualquer mentira. Muitas vezes, dizer-se a verdade é um ato egoísta porque significa apenas que queremos dividir a angústia que sentimos e partilha-la  com o outro, cobardemente. Prefiro sempre uma mentira a uma verdade que alivia. Quem tem tanta necessidade de dizer a verdade, provavelmente sente culpa de todas as mentiras que disse. Sempre que somos honestos connosco, não há mentira que abale nem verdade que mude.  As mentiras são só a imagem que cada um idealiza de si. Não é o fim do mundo nem nenhuma facada nas costas. Que não se odeie a mentira porque ela é uma parte inevitável do caminho, tal como a verdade. Saber a intenção que pomos em cada coisa e dormirmos tranquilos com a nossa parte é o quanto basta porque o mundo é dos que conhecem a verdade dentro de si.

Tu nunca foste de voltar atrás:

A vida é feita de contratempos. O teu regresso foi simultâneo com o meu mas eu aterrei noutro lugar. Um desencontro mais ou menos feliz. Uma felicidade mais ou menos honesta. Tu sabes o que te reservo e eu conheço o que tens para mim. A tua mão já foi lida e o mapa astral está traçado. As estrelas dizem que te quero sempre bem porque não me desfaço dos momentos. Lembro os bons, guardo os maus mas nunca me esqueço de quem me fez feliz. Porventura, estratégia do destino, fazer do teu regresso a nossa distancia, logo agora que tu vinhas para ficar. A ironia é cúmplice do tempo, os dois acusam-nos de usurpação e profanação da vida mas eu, que gosto de reger-me pela presunção da inocência, recuso a sentar-me no banco dos réus. Confesso, transgredimos a felicidade mas foi um crime que prescreveu. Uma honestidade completamente absolvida.

Foi Deus:

Não sonhas com quase nada e desejas muito pouco mas eu entro em todas as tuas esperanças e estou em cada linha das tuas orações. E eu, que sou uma agnóstica crente em todos os que têm fé, emociono-me sempre com a convicção das tuas palavras sempre que pedes a Deus que me guarde e proteja. Eu, que sou agnóstica, nunca ousei dizer-te que não existe porque tu acreditas e há coisas tão simples quanto isto: sempre que acreditamos, torna-se verdade. 
Tenho medo que não saibas que nós somos o que mais amo e, de alguma forma, faço de ti o meu Deus porque é em ti que acredito e que a minha fé recaí. Eu, que sou agnóstica, não me consigo perdoar por cada dia que passo longe de ti. Tu estás acima de todas as coisas, porque não há poder maior do que a paz que me dás. Agnóstica como sou, desafio o teu Deus quando me entregas à sua vontade e, a verdade é que ganho sempre porque o meu Deus existe e és tu.

nA tua vida vale tudo:

Há felicidades que não morrem. São uma caixa que se abre para o mal, o antídoto para o veneno que corrói por dentro. As felicidades tiram as nódoas mais difíceis e afrontam as dores mais teimosas. As felicidades são amores a baterem no peito, como um mar de tempestade, a lembrar-nos todos os dias que estamos vivos e é para isso que existimos. Que nunca te envergonhes de ser feliz e nunca tenhas medo de tentar. Não te martirizes com os erros que deste porque o choro não é a previsibilidade da tristeza, há quem faça lágrimas de felicidade. Para perdoar é preciso esquecer, que nunca esqueças isso porque só depois é que te podes encontrar. Lembra-te que o amor anda por aí e, a maior parte das vezes, é mais do que o expectável porque não há nada mais imprevisível que os afectos.

O melhor legado é a força:

As heranças são sinais traiçoeiros. Quando num corpo se vê o seu antecessor mas as marcas não foram feitas pelo mesmo caminho. O sofrimento é a pior das herança porque a amargura da vida é demasiado difícil de desfazer. Crescer na dor é uma infância triste a querer ser mulher, sem nunca conseguir. Nascer-se já derrotado de um património que nunca soube vencer. Não há como curar quem olha a vida sempre em agonia, que veja um fracasso a cada passo. A comiseração de quem nunca aprendeu a soletrar a alegria. A misericórdia de quem sobrevive da culpa montada por si e pelos seus. É de família, a tristeza pode ser hereditária por tradição. Os melhores pais são os que obrigam os filhos a serem felizes, são os que apresentam um espólio de armas desde a nascença, capaz de travar qualquer luta. São os que se recusam a criar uma vítima porque não se esquecem que foi um filho que planearam.  Os melhores pais são os que nunca admitem acobardamentos, são os que conseguem transmitir que a vida tem tanto de simples como de bom, que não se sujeitam a resignações porque sabem que dos coitadinhos da vida nunca rezou história.