Vou espalhar o boato:

Partimos de pressupostos. Assumimos o que não conseguimos ver. Guardamos todas as assunções. Vivemos em função de palpites. Assistimos a uma corrida mas só nos importamos com o fim, quem chega primeiro à meta. Nunca nos importamos como começou e quem ficou pelo caminho. Suspeitamos que sim, ouvimos dizer que sim porque nos disseram que sim. Conjeturamos a vida alheia e aceitamos esta presunção de sermos sempre um bocadinho melhores, de estarmos sempre um bocadinho mais à frente, mais perto da meta. Equacionamos os comportamentos dos outros com base nos nossos preconceitos. Admitimos uma verdade que é só nossa, que alguém nos contou. Imputamos responsabilidades e declaramos guerra, sempre adoramos lutar contra alguém que já vem cansado de outros combates. Olhamos de cima, rimos e anunciamos no facebook que ganhámos. Esquecemos o principio, condenamos o meio e esperamos o regozijo do fim. Suspeito que sim, ouvi dizer que sim, disseram-me que sim, que a vulnerabilidade se mostra em todas as investidas obsessivas que a nossa fragilidade não consegue aguentar por aqueles que têm de ganhar a qualquer preço. Diz que sim por isso, eu nunca duvidei. 

E se a vida parasse de importar?

Tenho anos de histórias para contar ao teu lado. Guardo as boas, as más e as melhores. Sempre tive dificuldade para controlar os pensamentos, vêm uns atrás dos outros, em catadupa, uma espécie de corrida, para ver qual chega primeiro. Nunca os tentei parar, deve ser isso que os filósofos chamam de honestidade intelectual. Sempre tive receio das pessoas que nāo pensam porque a verdadeira liberdade vem do confronto com aquilo que de mais íntimo temos, vem das entranhas. É contra mim e a meu favor que jogo, o momento em que o silêncio não me incomoda. Eu vivo com os fantasmas que criei dentro de mim, com todas as assombrações do passado mas é do futuro que a vida é feita. Eu tenho anos de historias, anos de medos, anos de reconciliações e felicidades. Guardo as boas, as más e as melhores e continuo porque nunca tive medo do silencio.