Sobre partidas (texto nao aconselhável a quem ainda não foi):

Quando partimos, não deixamos o nosso país; renunciamos a todas as coisas que damos como garantidas. Não nutro qualquer ideia romântica ou patriótica pela imagem de fazer as malas e abalar. Vamos quando temos de ir. Vamos se tivermos de ir. Às vezes vamos sem sabermos se devemos ir mas há quem vá. Há quem chegue com o coração mais ou menos cheio mas assim que pousamos as malas, começamos a fazer casa noutro lugar. Quando vamos, nunca sabemos bem para onde vamos, mas na nossa ingenuidade gostamos de acreditar que sim, que em caso de emergencia, podemos regressar ao ponto de partida e começar outra vez.
Quando partimos, nao deixamos o nosso país; abandonamos as pessoas, deixamos de percorrer os caminhos de todos os dias e desaparecemos da vista de quem gosta de nos.
Vamos querer manter o contacto. Dizemos isso em voz alta, aos nossos amigos para parecer mais verdade e mais possível. Eles dizem-nos que vamos manter o contacto. Porque agora o mundo é tecnológico e estamos todos à distancia de um clique. Não é assim. Eventualmente, acabamos por perder para a distancia. Vamos voltar ao ponto de partida de ferias, uma, duas, talvez três vezes. Vamos querer ficar quando temos de partir. Naturalmente, as vidas que estão do outro lado continuam e a nossa também. O mundo continua a ser tecnológico mas já não vai dar para ir ao Skype a qualquer hora e as mensagens vão demorar mais tempo a ser respondidas. De repente, começamos a saber das noticias com atraso mas nem vamos reparar porque as pessoas são ocupadas e entretanto também construimos uma vida no sitio onde estamos. Temos outros amigos e sabemos de outras novidades. Vamos voltar ao ponto de partida pela quarta vez. Os nossos amigos vão ter menos tempo e nós começamos a ouvir que estamos diferentes. Vamos negar, obviamente. Vão dizer-nos que falamos de outra forma e já não vamos entender todas as piadas durante os jantares. Mas estamos no nosso pais, de ferias e, por isso, queremos aproveitar, ate ao regresso que vai sendo cada vez menos doloroso.
Pensamos que decisão de ir é a que dói mais e, durante os primeiros tempos, é. Depois, o mundo muda e doloroso mesmo é retornar ao sitio que davamos como garantido. Porque as caras são as mesmas mas os sorrisos são diferentes. A voz continua igual mas o que se diz tem outra densidade. Falamos a mesma lingua mas já não dizemos as mesmas coisas. Porque descobrimos que as pessoas que conhecemos podem voltar a ser estranhas. E, sem darmos por isso, ja somos estrangeiros no nosso país mas sem nunca pertencer realmente a lado nenhum. Partir não custa nada, o mais difícil é levar as pessoas connosco. Não perder ninguém pelo caminho. Quando partimos, vamos sozinhos. Quando regressamos, estamos mais sozinhos ainda. Entre partidas e regressos, na subtracção das perdas e das conquistas, nos entretanto do dia-a-dia, descobrimos que construimos uma casa dentro de nos e podemos existir em qualquer lugar. Aprendemos que as vidas são iguais em todo o lado, que o transito é caótico em hora de ponta e que acabamos todos por partilhar o mesmo por-do-sol. Encontramos formas de nos reinventar e percebemos que não ha mal nenhum em saber viver sozinho.

2 comentários:

  1. Sabes, não duvido nem um bocadinho do que escreveste!
    Ainda estou em fase de adaptação, mas só quero conseguir ser feliz aqui, é aqui que estou agora, é aqui que tenho de viver e estar bem.
    E obrigada pelas palavras, a realidade dói, mas não podemos ignorá-la.

    Beijinhos

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