Aos mundos que chocam, partem e ficam. Tudo resta menos a nostalgia:

O começo é sempre assim; a chuva é agua mas parece diferente, as pessoas falam mas os sons distorcem-se. Aprende-se a respirar e olhamos o mundo com lentes das boas. Não há pó, o entusiasmo realça o cheiro a novo e a vida por onde se caminha é um elixir. 
Depois, lentamente, os sítios deixam de ser bem frequentados, os olhos que olham veem o reverso como lupas que maximizam as fissuras e detetam o erro. Os sonhos embrulham-se em planos, os planos transformam-se em utopias e a vida corre em abstrato até ao fim. 
Os dias continuam pequenos para tudo o que há a fazer, negas a possibilidade de este ser o momento no qual depende a tua vida. O tempo pos-se feio, logo agora que tu gostarias de começar a reconstruí-lo outra vez.
Hipotecam-se todas as dúvidas, da guerra também hão-de crescer flores. 
Quando nada resta e tudo sobra, o começo é assim.

Go straight to hell - Paradoxos de um raciocínio brilhante:

Desistimos com medo de perder. E esquecemos que desistindo, perdemos tudo.

O amor sustenta relações agarrado à esperança que tudo mude:

O amor pode ser um sítio cruel, uma faixa de gaza cheia de militares armados prontos a disparar. Há alturas que o amor é uma falência emocional, um coração e um corpo violados em prol de um ego pequeno demais para negar. Nesta visão absoluta e definitiva, esgotam-se os recursos e a capacidade emocional para resistir. A mágoa partilha-se mas não se devolve, o destino faz equipa com o amor e a história volta a repetir-se numa fatalidade difícil de entender. Na falta de amor buscamos o excesso e vivemos sempre em desequilibro, agarrados à imagem daquilo que nos foram fazendo acreditar.

Saber que o infinito existe e ainda assim nunca chegar-se lá:

Quando for de noite e nós já formos velhos. Se o sol empurrar o tempo e o teu nome vier com sombras. O passado é rescrito e o futuro daqui a milésimos de segundo. A loucura da vida, o frenesim dos dias e um copo meio cheio. Não quero o que me dão e não dou o que é meu. Tenho medo de todos os adjectivos que usas depois de mim. Viver dentro de parêntesis é uma falácia enganadora, é o resto de coisa absolutamente nenhuma. Julgo o tempo e bebo para atrasar todos os momentos. Devoro tudo o que vier a partir daí. Estarás entre todos os desejos submissos e a amplitude de cada olhar. Desarmo-me e sou cruel. Sigo tudo o que vejo e silencio o mundo que fica a sós, comigo.
A meticulosa importância de concretizar cada verso de uma promessa. Desdobras-te para que o espaço chegue. O fosso entre o que se delineou e a realidade que se constata. Hoje não quero ser simples e, se um dia souber escrever sobre a falta que me fazes, terei de falar sobre a idiossincrasia de um laço perverso (que preservo). A clarividência, absoluta e indeterminada. Exceder a dose e intoxicar-te de verdade. A libido inequívoca que se precipita nos contornos impermeáveis da dor. A clemência que contaminou todas as utopias geradas. Parte de mim é o recomeço e instigo-me a rever todos os caminhos. E tu, a consequência das expectativas dissidentes, o desmoronar e o constrangimento que espoletas nos gestos de todos os dias. Tu, a consciência assolada de quem chora e sonha.
Encarcero as memórias e a vida deixa de ser um deslumbre confinado a dualidades opostas.

O dia da mãe - Ninguém sai donde tem paz :

Já passaram dois dias e continuo a ser filha da mãe.

Quebramos os dois (é quase pecado o que se ignora):

Tu não sabes porque tu não vês. Tu não tens porque tu não dás. Tu vais porque foges. Adeus e até um dia. Adeus, vemo-nos por aí. Eu não toco com medo de partir. Não dou o nó nem desfaço o laço. Eu não digo porque não sinto. Não me despeço porque estou. Bom dia. Olá outra vez.
Tu não estás mas eu estou. Tu não vais mas eu vou. Tu transformas e eu mudo. Tu queimas e eu apago. És de tempos mas eu de compassos. Tu és de marés e eu sou de luas. Eu sou quem parte mas és tu quem se esconde.
Alguém que toca. Outro que foge. Alguém que conquista e outro que seduz. Um que quebra e outro que abre. Um que se despe com o intuito de amar-te. Diz o meu nome, quero-te outra vez.

Da tragédia um pouco maçadora de teres morrido:

A verdade é que a vida continua depois e apesar de tudo. As dores arrumam-se e as memórias vão surgindo intermitentes com a saudade. Há suspiros dentro de um silêncio e um olhar vago porque a vida de todos os dias retoma o seu dia. Engano-me voluntária e conscientemente, faço da tua morte um problema teu, uma mágoa tua. De mim não levaste nada, resigno-me a amar-te porque no dia que morreste eu poderia ter feito tudo, até mesmo esquecer-me de desamar-te.

A Ivone e eu:

Às vezes acobardo-me nesta ideia de pensar que minto-te porque a verdade deixar-te-ia ainda mais triste. Tenho mais jeito para ser tua amiga para o bem do que para o mal. Há dias em que a tua felicidade é um avião com um caminho seguro para casa, é uma gargalhada que herdaste para colmatar uma falta que eu não posso comprar-te nem substituir-te. Nestes dias, em que a minha felicidade não consegue abraçar a tua, eu espero-te com uma inquietude que nunca consigo habituar-me. Eu espero que tu deixes de esperar porque a ilusão é um gatilho preso capaz de matar. 

Try a different view, see the line outside of you:

Confundimos as pessoas com as suas causas. As atitudes com os comportamentos. Confundimo-nos no essencial porque o que está à vista não é aquilo que vemos. Confundimos a maternidade com o parto, o sexo com o amor e julgamos sempre que o que vemos é tudo o que está à vista. Confundimos a escola com a educação, o conhecimento com a inteligencia, a justiça com a prisão. O que está à vista não é o que está para ser visto mas confundimos o que já vimos com aquilo que falta ver. Confundimos as partes pelo todo, a guerra com a religião, o poder com a independência. Somos vistos mas queremos ver primeiro. Olhamos mas não vemos. E quando vemos não reparamos. Confundimos o odio com a inveja e os julgamentos com as opiniões. Confundimos os juízos de valor com os preconceitos, a morte com a dor e as palavras com as orações. Confundimo-nos na fé porque a esperança vem primeiro. Confundimo-nos na essência porque o que não se vê vem depois. Confundimos as promessas com os compromissos e as regras com a ética. Não veremos acima de nós porque procuramos as respostas sem sabermos as perguntas. À vista desarmada, o mundo é aquilo que nos permitirmos ver. Sem lentes, sem zoom, sem medidas. Confundimos o erro com o pecado, a urgência com a emergência. Confundimos, na linha ténue dos dias, o infinito com o futuro, o prazer com o gosto porque necessidade e vontade não são iguais. Vivemos de frente para o mundo e ainda assim morreremos sem ver nada. O lusco fusco a confundirmos o dia da noite. O dia aqui e a noite aí, um par de olhos a iludir-nos a vida. Confundimo-nos nos passos, na vertigem de cada decisão e na solidão dos dias. Confundimos o que vemos com o que sentimos porque a realidade está diante de nós mas baralhamo-nos com as emoções à flor da pele. Confundimos o ser com o estar porque a fugacidade do tempo não nos deixa ver para além de nós. Sem metáforas, sem eufemismos, sem pleonasmos. Não te iludas, não te confundas nem caías nesse cliché de pensar que os olhos são o espelho da alma porque eles só apontam o caminho.

Turn on:

No ginásio, conheço as pessoas pelas pernas.

Eu acusei-me e defendi-te com unhas e dentes:

A mentira não morre. Há portas que nao se fecham e verdades que nao se abrem. Escondo o jogo porque tenho trunfos que nao me permito mostrar. 

Não pedimos o fim, mas não nos importamos se acabar assim:

Não há, como nos filmes, aquele som aterrador do monitor que nos mostra a linha reta e continua (paradoxalmente, o fim, também). Há um silêncio e um arrependimento instintivo e instantâneo, sem paralelismo com nada. É nesse momento que o mundo para. Está ali mas já não está. Foi o melhor mas não foi. Era isto que se queria mas não era. A morte foi a primeira verdade que aprendemos e a mais difícil de assumir quando chegamos ao fim. Vivemos toda uma vida a saber que vamos morrer e quando a morte chega é sempre traiçoeira, desprevenida e devastadora. Há a tristeza com a saudade e a vontade. Foi uma escolha mas já não é apesar da morte não ser escolhida porque é sempre traiçoeira, desprevenida e devastadora.

Used to tell me "sky's the limit", now the sky's our point of view:

Lembrar-me é trazer as memórias à vida. Viver serão sempre as saudades dessas memórias. O limbo estará sempre no extremo das realidades. Tudo é verdade e tudo pode ser caminho. 

Eu & Eles:

Viver com homens lembra-me porque é que gosto tanto deles.

Isto da vida:

O truque é preocuparmo-nos com a opinião dos outros sem deixarmos de duvidar da nossa.

Whoever doesn't miss Soviet Union has no heart. Whoever wants it back has no brain:

É fácil fazer-se uma guerra. É nestes momentos que prefiro a cobardia à bravura. 
Não há heróis na vida real, os que tentam morrem. São os cobardes, que com amor à vida e talvez com medo de morrer, recebem as medalhas. E, talvez as mereçam.

A ironia das ironias:

Quem não gosta da Rússia são os que dependem dela.

Amor com amor se paga:

Perdi a conta à quantidade de vezes que o disse. Deixei de contar porque a verdade não tem número, é um infinito sereno que me cabe no peito na hora de adormecer.
Insisto nesta certeza que tu me dás à espera da condicionalidade toda que daí advém. Tu sabes muito mais que eu. Soubeste-o muito antes de mim. Os cheiros ficaram na memória e agora é só o amor que nos segura. Tu sabes muito mais que eu. Soubeste-o muito antes de mim mas eu continuo a perder a conta à quantidade de vezes que o disse. 

The mother of my mother was my mother too:

Your crazy son, the stylish one 
The pretty woman, she's my mum 
And now the news, don't feel shame
My dear daughter has your name

That god damn bitch of life she made me cry:

Contar até três não chega. Fecho os olhos e volto a abrir. Estamos a pensar no mesmo, é maior que nós porque programaram-nos para ter outro destino qualquer. Não percebemos de finais felizes e o amor tropeça-nos por isso, fechamos os olhos, contamos até três e pedimos mais. Tantas vezes quantas as razões que nos faltam. Perdemo-nos no caminho e deixamos para trás tudo o que não foi repensado. Conto até três, penso duas vezes. Outra vez. Tantas vezes quantas as razões que tenho. Tantas quantas as coisas que não posso escolher. E no fim, deixamo-nos ir porque um dia soubemos tomar conta de nós. Deixamo-nos ir porque o verbo consente tudo. Deixa-me ir porque os vícios desprendem-se do corpo.