Existem por detrás da cal:

Devia ser proibido pensar na morte enquanto se vive. Nós vivemos nesta ambivalência: eu a pensar no teu fim enquanto projeto o meu futuro. Tu a arquitetares a minha vida com a consciência que nunca a verás por inteiro. Quanto mais morres, mais feliz sou e essa é a condição mais pacifica de aceitar porque não me pedes menos que isso.
Um dia vais morrer e eu, que me habituei a ver a morte todos os dias, vou ser apanhada de surpresa. Depois vou achar que devíamos ter passado mais tempo juntas mas é mentira porque ainda hoje me disseste que vivo contigo todos os dias.


Ninguém é quem queria ser:

Reparo nas horas e atraso-me nos segundos. Impedir a felicidade é a forma mais cobarde de ser infeliz. Evito sempre o momento, a espera é um acto demasiado egoísta para quem sabe amar. A verdade pode ser cruel porque consegue ser reescrita e rasurada todos os dias mas é nela que sustento todas as minhas decisões. Saberei eu do espaço que se agiganta entre nós? Interiorizei eu a hipérbole do nosso amor? Será certo que a dor dá lugar a um prazer maior? Ainda não sei se o destino é filho do livre arbítrio ou o seu maior opositor. Não basta dizer o que queremos, temos de acordar todas as forças e atrever todas as vontades e talvez um dia me encontrem nesses sítios que eu ainda não sei que existem porque os fantasmas aparecem para nos lembrarem que a vida é uma puta cara.

Eu sinto ter ainda no meu peito coisas tuas:

Aprendo-me no cansaço. Os dias confundem-se e o presente vive-se em catadupa. Eu não volto aos sítios onde fui feliz mas o futuro desenha-se com os contornos do passado. Dentro do fim que somos há sombras que se movem. A verdade nunca foi tão lúcida e tão presente. Não há fronteiras que me limitem nem mares que me afoguem. Mato a lógica mas és tu quem eu enterro, a inocência de compreender a incongruência das coisas que não sinto. Cedo-me ao eventual destino sem acreditar nele, lembro-me que a sorte aparece para nos apresentar ao azar. Há medos que chegam tarde e segredos a morrerem surdos. Dentro das minhas dores encontro o teu nome. Encontro todas as razões que me prendem. Eu sou um relógio que não pára. Todas as emoções doem. Nunca deixei cair as palavras que guardo para ti mas é dos gestos que vivemos, que não esqueçamos isso.

Homossexualidade - Quando os agressores são vitimas:

Por esconder-se, o sentimento vira preconceito e o amor torna-se refém da própria discriminação.

Eu queria conseguir sair sem cinzas na despedida:

Consenti-me à felicidade. Por nunca se imaginar, a despedida fingiu-se todos os dias. Em cada viagem e em cada regresso. Nos abraços todos que ficaram por dar e nos impulsos desmedidos. Eu quis-nos bem, quis que a vida perdurasse na adrenalina que nos juntava. Nós fomos os lugares comuns na forma e nos gestos. Existimos para além de nós porque a tranquilidade e o caos correm nas margens do mesmo rio. Vivemos sempre à margem, sem procurar o que estava por dentro. Partilhámos o sono e o pão duro, a mais intima das intimidades. Eu dei-me toda à felicidade, consciente de que a eternidade são os momentos, lúcida de que para sempre é o agora a acontecer. Eu assumo as falhas e as loucuras, fui eu quem baixou os braços enquanto bebia do frio. Fui eu quem  sentiu o tempo a consumir devagar. Há verdades que nascem vazias.  O comboio, quando passa, não apita para mim. É para nós, para sabermos que está a passar. Valemos mais do que a vida quis. Mais do que a felicidade deixou. Valemos pelas verdades que conhecemos e todas as que fizemos nascer.

No lado quente da saudade:

O que sentimos revela-se mais nas despedidas do que nos reencontros.

Tudo quanto fazemos é a cópia imperfeita do que pensámos em fazer:

As expectativas são facilmente defraudáveis. A fantasia deixa-nos imaginar todos os cenários, antever todos os gestos e preparar todos os diálogos. Ignoramos a realidade, como se a ficção abrisse espaço para uma ilusão fácil de comprar. Caminhamos sempre o mais à direita possível, como se a segurança dependesse apenas de nós. Não depende. Há sonhos que só são verdade quando acabam. Abandonar uma ilusão é melhor do que encontrar uma verdade mas mesmo assim, insistimos em acreditar em tudo o que não podemos tocar.

Por baixo de cada coisa há um nome:

Teresa devia ter percebido porque é que a vida se suicidava todos os dias, da mesma maneira que pressentiu que um compromisso podia ser um sacrifício. Na falta de coragem, Teresa perdia o conforto de saber que todos os caminhos eram sem retorno e que, dali para a frente, todo o destino era uma montanha dificil de transpor. Respirar deixava de ser um ato involuntário, Teresa sabia-o. Teresa era dotada dessa consciência exacerbada, de uma resiliência quase inata e de um medo que a induzia à culpabilização. Eram as mãos que agarravam todas as coisas que Teresa não chegava a tocar mas os gestos estavam lá, à vista desarmada, nus de qualquer sentido. Teresa era ridícula de tão submissa, sozinha de tanta companhia, presa de liberdade. Teresa devia ter percebido porque é que o amor é aprendido todos os dias, da mesma maneira que intuiu que a paixão pode cegar qualquer compromisso. Teresa distraia-se da felicidade e, também por isso, odiava-se todos os dias. No deslumbre de cada promessa podem caber milhares de traições. Teresa condensava a culpa e o desejo,  o empenho de destruir tudo o que era seu. De tão ridícula ficou sozinha. De tão sozinha tornou-se presa. De tão submissa perdeu a liberdade. Teresa sentia-o, ainda que não o dissesse em voz alta, sabia-o. Teresa devia ter percebido que quando a vida se suicida todos os dias é porque estamos a fazer tudo aquilo que gostaríamos que fizessem por nós. Teresa sabia-o mas nunca o percebeu. 

We can live our misbehaviour:

Não tenhas pressa: Os erros vêm ao de cima com a mesma rapidez que as virtudes afundam. Hás-de ter sempre um par de dedos apontados como revolveres carregados. O bem passa e o mal perdura e tu, vais ser sempre o vilão até ao dia da tua morte mas os bons serão sempre aqueles que conseguirão carregar esse peso, sem saber que o suportam. Não tenhas pressa de viver até à minúcia, nenhuma felicidade é feita em alta velocidade porque a memória alimenta-se de momentos que demoraram a esquecer.

Love the silence but don't die of it:

O que mata é o que se sabe mas não se diz. A verdade pode esconder mentiras e nas omissões pode encontrar-se a veracidade do pormenor que, afinal, importa. Não basta ser fidedigno, a autenticidade das palavras não me comove e o silêncio é, muitas e simultaneas vezes, a melhor arma e também a melhor armadura. Quando o que provoca é o mesmo que evita, a única guerra é dentro de nós. 

The more you change the less you feel:

Quando acordámos, eu já era outra. A minha avó tem razão, há momentos em que devíamos morrer para nascer outra vez. Conheço-te o corpo mas não te leio o olhar. Sabes o cheiro mas não imaginas o que vai por dentro. Há histórias que começam e acabam ainda de noite, ruas que se desdobram em cima da curva, caminhos que se desbravam de olhos fechados. Ainda não sei se é a falta do medo ou o excesso de coragem, porventura a loucura de viver sem ver o dia mas quando acordámos, eu já era outra e os crimes podiam estar todos por acontecer.

Go straight to hell - Paradoxos de um raciocínio brilhante:

Sempre que nos sentimos ofendidos com um adjetivo é porque estamos a ofender alguém.

Não te canses de mim:

Conheces-me melhor do que aquilo que sei. Mais do que aquilo que mostro. Talvez eu seja o único livro que lês. O único livro que escrevo. Conheces-me porque sou tua como nunca soube ser de mais ninguém. Não me cansarei de ti, contigo sou sempre feliz.

Enquanto durar:

Não quero atrasar o momento nem perdurar nele. Não te nego, ainda que a tua presença não seja sentida. Perdemo-nos num regresso quase imperfeito de tantos atalhos, quase condizente como as palavras que saiem da nossa boca. Já precisei de ti para ser eu com todos os caminhos que percorreste para chegar até mim. Quando os nossos detalhes se apagarem, não restará nada senão o olhar de quem quis ser feliz. Por enquanto, o que nos une continua a ser muito mais do que a felicidade.

Quanto tempo se demora a aprender a liberdade?

Vivemos há quarenta anos em democracia. Historicamente, somos uns adolescentes com a rebeldia toda na venta e umas hormonas aos saltos e, ainda assim, quarenta anos parecem já tanto tempo.
Dizer que já não estamos numa ditadura é uma falácia fácil e estranhamente assustadora. Estou a duas gerações da revolução e, ao mesmo tempo, a ser educada por elas. Pertenço à primeira geração que nasceu já em liberdade mas desta premissa decorre o silogismo de que a partir daqui nascerão os verdadeiros filhos da revolução, com a prerrogativa natural e, ao mesmo tempo, com o desígnio todo da nossa herança cultural.

A infância fez-se mulher e a vida virou recordação:

Tu eras o ideal mais próximo que tinha daquilo que eu gostaria de ser noutra vida. O exemplo vivo de que o destino acaba por levar a cada um aquilo que é seu. Eu olhava-te do alto do meu metro e cinquenta e sabia que a vida, para ti, tinha outro encanto. Tu eras os sonhos todos, as missões impossíveis e os fragmentos de coragem que se juntavam das cinzas. Eu olhava para ti e pensava que talvez um dia, mais ou menos longínquo, pudesse ser como tu. Simples, como a vida. Simples, como se querem todas as coisas. Depois a vida aconteceu como a naturalidade de qualquer fim. Eu cresci e dizem-me que somos iguais.

Um dia havemos de falar sobre isto:

Há sentimentos que nascem para serem amarrados e depois, com o tempo, serem desembrulhados, em doses pequenas. Aqui e ali, cozinhar a lume brando e apagar assim que ferver. É um ditador a tempo inteiro dentro de nós, uma vontade recalcada ou uma cidade a viver sempre em lusco fusco.
Prendo-o mas não o digo. Não digo porque o prendo mas só o prendo porque não o digo. Um ciclo vicioso, a nódoa que não sai daquela camisola mas que teimamos vestir.


Once you're grown up, you can't come back:

O maior medo será crescer, como se o mundo atrasasse toda a infância e a angustia fosse mais forte que o tempo. Ser pequeno para sempre e afirma-lo com a ingenuidade de uma criança e com a consciência verosímil que qualquer adulto pode ter - o paradoxo de um corpo que não caberá na idade que tem.

You had a vision they couldn't see:

E, indubitavelmente, caminhou até ao precipício porque sabia que era ali que a vida começara. A linha ampla e frágil que seguia todo o horizonte que não vira desde então. A presunção do momento, um passo ao lado e tudo a acontecer no limbo porque a vida só fizera sentido assim.

O bom da morte está na vida:

O melhor testamento são as palavras ditas e a melhor herança são as recordações revisitadas.