Não penses. Bloqueia-te e resiste. Pinta as unhas mas não te preocupes com a acetona. Não penses no desmaquilhante que vais gastar. O teu melhor vestido continuará a ser o mais bonito mesmo que ninguém te veja. É agora que a vida acontece. Desprende-te do medo da noite; das palavras que ouves do outro lado da rua, sempre que passas por lá; dos gatos pretos que cruzam o teu caminho. O que será de ti se não conseguires libertar-te de todas as coisas que não são tuas? É deprimente reviver o passado todas as manhãs mas não queiras a ansiedade que a previsão do futuro oferece. É perigoso viver num tempo que não é nosso. É hoje e agora, é aqui que o mundo se desfaz e que a vida começa. Se não saíres de casa todos os dias à pressa, com medo de te atrasares para a vida; se não ouvires com atenção as regras do jogo que tentas jogar, o que será de ti?
Estou de partida mas o importante é ficares bem:
Apesar de tudo estar igual, está tudo diferente. Há coisas que eu lamento mas já não me revoltam, possivelmente por sensatez ou falta de força. Quem desaparece acaba por esquecer e a distância afasta sempre as pessoas. Não posso pedir desculpa mas é verdade que fui embora cedo demais, como todas as pessoas importantes têm ido da minha vida. Eventualmente serei diferente e fria mas não consigo estar arrependida. É provável que fique desiludida com a loucura que me falta mas sobretudo por não me apetecer voltar.
A verdade da mentira:
De toda a malvadez que possa haver no mundo, a mentira é provavelmente o defeito com que lido melhor. Nunca me sinto traída pela mentira e já me cruzei com tantas. Nunca traí pela mentira e já disse tantas. Quem me diz mentiras, nunca mente a mim. A mentira é só um meio para que quem mente se sinta bem. É por isso que aceito as mentiras com a mesma naturalidade que aceito as verdades. Uma espécie de serviço publico, uma oportunidade que dou aos outros de me contarem a novela que andam a viver. Verdade ou mentira, as duas tem o mesmo peso. É o valor que lhe damos que as torna mais ou menos importantes. Há mentiras que nos protegem muito mais do que qualquer verdade. Há confissões que doem muito mais que qualquer mentira. Muitas vezes, dizer-se a verdade é um ato egoísta porque significa apenas que queremos dividir a angústia que sentimos e partilha-la com o outro, cobardemente. Prefiro sempre uma mentira a uma verdade que alivia. Quem tem tanta necessidade de dizer a verdade, provavelmente sente culpa de todas as mentiras que disse. Sempre que somos honestos connosco, não há mentira que abale nem verdade que mude. As mentiras são só a imagem que cada um idealiza de si. Não é o fim do mundo nem nenhuma facada nas costas. Que não se odeie a mentira porque ela é uma parte inevitável do caminho, tal como a verdade. Saber a intenção que pomos em cada coisa e dormirmos tranquilos com a nossa parte é o quanto basta porque o mundo é dos que conhecem a verdade dentro de si.
Tu nunca foste de voltar atrás:
A vida é feita de contratempos. O teu regresso foi simultâneo com o meu mas eu aterrei noutro lugar. Um desencontro mais ou menos feliz. Uma felicidade mais ou menos honesta. Tu sabes o que te reservo e eu conheço o que tens para mim. A tua mão já foi lida e o mapa astral está traçado. As estrelas dizem que te quero sempre bem porque não me desfaço dos momentos. Lembro os bons, guardo os maus mas nunca me esqueço de quem me fez feliz. Porventura, estratégia do destino, fazer do teu regresso a nossa distancia, logo agora que tu vinhas para ficar. A ironia é cúmplice do tempo, os dois acusam-nos de usurpação e profanação da vida mas eu, que gosto de reger-me pela presunção da inocência, recuso a sentar-me no banco dos réus. Confesso, transgredimos a felicidade mas foi um crime que prescreveu. Uma honestidade completamente absolvida.
Foi Deus:
Não sonhas com quase nada e desejas muito pouco mas eu entro em todas as tuas esperanças e estou em cada linha das tuas orações. E eu, que sou uma agnóstica crente em todos os que têm fé, emociono-me sempre com a convicção das tuas palavras sempre que pedes a Deus que me guarde e proteja. Eu, que sou agnóstica, nunca ousei dizer-te que não existe porque tu acreditas e há coisas tão simples quanto isto: sempre que acreditamos, torna-se verdade.
Tenho medo que não saibas que nós somos o que mais amo e, de alguma forma, faço de ti o meu Deus porque é em ti que acredito e que a minha fé recaí. Eu, que sou agnóstica, não me consigo perdoar por cada dia que passo longe de ti. Tu estás acima de todas as coisas, porque não há poder maior do que a paz que me dás. Agnóstica como sou, desafio o teu Deus quando me entregas à sua vontade e, a verdade é que ganho sempre porque o meu Deus existe e és tu.
nA tua vida vale tudo:
Há felicidades que não morrem. São uma caixa que se abre para o mal, o antídoto para o veneno que corrói por dentro. As felicidades tiram as nódoas mais difíceis e afrontam as dores mais teimosas. As felicidades são amores a baterem no peito, como um mar de tempestade, a lembrar-nos todos os dias que estamos vivos e é para isso que existimos. Que nunca te envergonhes de ser feliz e nunca tenhas medo de tentar. Não te martirizes com os erros que deste porque o choro não é a previsibilidade da tristeza, há quem faça lágrimas de felicidade. Para perdoar é preciso esquecer, que nunca esqueças isso porque só depois é que te podes encontrar. Lembra-te que o amor anda por aí e, a maior parte das vezes, é mais do que o expectável porque não há nada mais imprevisível que os afectos.
O melhor legado é a força:
As heranças são sinais traiçoeiros. Quando num corpo se vê o seu antecessor mas as marcas não foram feitas pelo mesmo caminho. O sofrimento é a pior das herança porque a amargura da vida é demasiado difícil de desfazer. Crescer na dor é uma infância triste a querer ser mulher, sem nunca conseguir. Nascer-se já derrotado de um património que nunca soube vencer. Não há como curar quem olha a vida sempre em agonia, que veja um fracasso a cada passo. A comiseração de quem nunca aprendeu a soletrar a alegria. A misericórdia de quem sobrevive da culpa montada por si e pelos seus. É de família, a tristeza pode ser hereditária por tradição. Os melhores pais são os que obrigam os filhos a serem felizes, são os que apresentam um espólio de armas desde a nascença, capaz de travar qualquer luta. São os que se recusam a criar uma vítima porque não se esquecem que foi um filho que planearam. Os melhores pais são os que nunca admitem acobardamentos, são os que conseguem transmitir que a vida tem tanto de simples como de bom, que não se sujeitam a resignações porque sabem que dos coitadinhos da vida nunca rezou história.
Marta:
Marta é a memória que nao se perde e os fantasmas que me empresta. Marta é um dia devagar, como quem não quer chegar ao fim, uma tempestade solitária em alto mar. Chegar ao cume e querer descer. Marta, tu és o nome que não digo em voz alta com medo de esgotar. O universo a conspirar contra mim. Se deus existisse, Marta... Se deus existisse, saberia de cor as minhas saudades tuas. Saberia da dor que pressinto a chegar, a minha recusa persistente de fazer da tua ausência um habito. Marta, quantas vezes é que podemos dizer adeus? Eu faço-me de esperas mas não quero ir embora. A morte ganhou a tua cara, és tu, Marta, a assombrar a minha vida. Marta. Marta. Marta. O teu nome a ecoar em mim. A ebolição da sede de te ver. Conduzo os meus passos e abstenho a consciência da tua falta porque ainda há tanto caminho. Como é que me desprendo do que está morto? De ti, Marta? Tu que és o peso na minha voz que não quero suportar. Crucifico-me na angústia e o sangue deixa o meu rasto. Quero enterrar o passado mas o milagre a nascer és sempre tu, Marta.
Implora pela paz:
Os dias regressam todos amanha. Não adiar a vida. Não calar o desespero e, principalmente, não apertar o medo, para que possa ir embora. Hoje é só mais um dia para todos nós. Sempre que abres caminho para felicidade, aceitas o que corre em paralelo e te expõe a tudo o que queres evitar. Seguir a rota, ser feliz apesar de todas as tristezas e aceitar os cruzamentos naturais do percurso. Talvez um dia vires a vida do avesso e quando voltares aqui sejas mais feliz.
Trocar futuros por memórias:
Há sempre um momento que define quem queremos ser a partir dali. A vida são as circunstâncias que encontramos mas também é a nossa capacidade de aniquilar os impulsos mais sombrios e primitivos que vêm à tona. Quem somos é o intervalo entre a bala que se dispara e a arma que conseguimos pousar. E depois, há que aceitar o alivio e a mágoa com a mesma serenidade com que vislumbramos dois caminhos da mesma existência. O lapso de uma decisão pode encontrar o desmoronar da vida que outrora arquitetámos porque para a morte nunca há motivo. Quem mata, acaba sempre também por morrer.
A morte é injusta mas a vida é merecida:
É a morte que me acorda todos os dias a lembrar-me que a vida existe e não são só três dias, é o tempo que conseguir vive-la a ser feliz paralelamente. Não é a morte que me faz viver mas é dela que fujo porque não a projeto no futuro, é um passado que vou deixando para trás. Sempre que corro para a vida, ressuscito um novo dia, com a mesma certeza que a morte já me habituou. É uma maratona dentro de mim, porventura um destino já traçado que faz da morte um rival que compete em vantagem. Adormeço descansada da morte do dia que passou. Acordo para a vida e concilio o cansaço que é correr todos os dias contra mim. Um dia, sei que vou perder para a morte mas até lá sou eu a impor-lhe a minha vida.
Touch my neck and I'll touch yours:
Tu merecias que eu te amasse. Parece que foi há muito tempo mas foi ontem, a vida está sempre a acontecer-nos e às vezes não me lembro de como tu me fazes bem. És quem melhor sabe ouvir-me e, também por isso, a única pessoa capaz de respeitar os silêncios. Talvez até te ame, porque tu merecias.
O milagre da vida não se repete:
As pessoas não se demoram nas alegrias. Vivem a felicidade à pressa e a antever todo o mal que aí vem. Repetem a tristeza todas as manhãs e, desenfreadamente, vivem dela durante o dia. Deixam que a mágoa se instale e que lhes arranhe por dentro até verem sangrar. As pessoas dão mais valor à tristeza do que à alegria e vivem com uma lucidez negra por cima. A tristeza é um animal que pede a melhor carne por isso, dão o corpo ao manifesto e violam-se consigo. Quem nos educa para os sentimentos, devia ensinar-nos que a tristeza é um estranho a quem nunca devemos pedir boleia, sob prejuízo de nos perdemos. Já ninguém quer saber da felicidade, já ninguém a vive. A coragem para multiplicar a dor de todas as manhãs inibe a alegria durante o dia. Feliz de quem ri sempre da mesma piada.
Sobreviver a uma despedida é aceitar o que aí vem:
É quando a despedida se aproxima que reparamos nos detalhes, como se o mundo fosse acabar dali a instantes e quiséssemos cristalizar todas as imagens possíveis. O melhor da despedida é sempre a saudade antecipada. Os sítios por onde passei deixaram-me sempre saudade e todos os laços trouxeram a dor que recusei sempre evitar. Acompanho à distância o que acontece noutras ruas e, de alguma forma, ainda vivo por lá. Ganhei uma cara para cada lugar e o desejo de que nunca lhes faltem sonhos para viver. Despeço-me com dor de um sitio para chegar a outro que nunca teria conhecido se não tivesse partido. Tenho saudades de todos e é por isso que sou de tantos lugares. Nada se esgota, aqui ou em qualquer outro lugar, nunca terei chegado ao final das minhas dores e das minhas alegrias.
É dos gestos que vivemos:
A frontalidade mata porque é uma luta pela sobrevivência, um instinto demasiado feroz que valora um ego pequeno demais para provar do seu próprio veneno. A frontalidade, essa cabra com pernas, que se orgulha a toda a hora, faz demasiado estrago para o bem que assume. As palavras enterram esperanças e dissipam dúvidas, e a frontalidade apregoada, como se de uma louvação se tratasse, segue a ordem natural de tudo o que não é pensado. Destrói mais do que elogia e faz frente a qualquer tentativa sincera de honestidade. Diz-me que és frontal, que dizes tudo na cara. Diz que não te importas com aquilo que os outros pensam porque encolhes os ombros e fazes o que te apetecer. Diz-me que não mudas por ninguém e sempre foste assim. És um herói que escolhe armas para promover a paz e eu presumo-te inocente da vida que tens porque ninguém é capaz de travar guerras sozinho.
O amor é o que tu vês ao espelho:
Afoga a verdade e diz tudo o que quiseres ouvir. O amor vem da luta interior, ouviste? Caminha na terra batida mas procura a coragem de caminhar pela lama. Sobe pelas escadas, desce pelo elevador. Grita as vezes que forem precisas e aparece sempre que quiseres. Imagina tudo o que vai ser possível. Mata o tempo em tua honra. O amor é perder a guerra mas ganhar a vida, ouviste?
Partir, aqui, para ficar:
O abandono pode ser o gesto mais complacente de termos por alguém. Há sonhos que nascem nas pessoas erradas ou vidas que se cruzam por engano. Até a bondade deve ser medida, com o peso que cada um pode carregar. No silêncio de cada abandono, há um tempo desabitado numa morada que se fez ilusão. Pode ser que um dia te faças homem e o teu passado não entoe dúvidas, talvez um dia tudo seja real e a vida seja um desenho perfeito das verdades incontornáveis. Um dia acordas e reparas que esta história é tua mas não foi escrita por ti e aprendes que saber inventar a felicidade é a melhor maneira de ser feliz.
Já 'tá. Já foi. Foi de morta:
A morte é uma saudade crónica. É a tristeza nos cuidados paliativos a longo prazo. Um diagnóstico inconclusivo. A morte é uma reabilitação modesta de um corredor que foi amputado a uma perna.
A morte, quando bem gerida, torna a vida mais fácil porque os dias ficam simples e há no fim a tranquilidade que não nos permitimos ver antes disso. Foi a morte que me trouxe o impulso e fez-me virar a esquina sem ter medo do que está depois da curva. A morte não é uma puta, como tantos querem acreditar, é um comunista no poder a dar uma mão e a roubar com a outra e pode ser tão ambígua como a gestão de qualquer ministério portugues.
Foi a vida que me apresentou à liberdade mas foi a morte que me libertou. A ideia paradoxal de que a vida é uma sucessão de mortes, uma guerra sem precedentes com todos os feridos graves que ficam pelo caminho. A vida a ser a morte e, por isso, o seu antídoto.
Depois do dia da mulher, hoje voltou a ser o dia das pessoas:
O que mais gosto são as especificidades. São as diferenças que me levam a gostar tanto de homens e mulheres, é a essência do que é cada um. Muitas vezes, por trás de uma igualdade aclamada por uma mulher está uma condescendia escondida e é por isso que o dia das mulheres me assusta. Parecemos ávidas pelo poder e esta ambição (que pode ser tão traiçoeira) de chegarmos ao poder dos homens, em vez de criarmos um poder fundamentado em nós, pode acabar numa emboscada pela ânsia da igualdade. O caminho que o feminismo quer fazer é o o extremo oposto do machismo e isso tem tanto de incoerente como atemorizador. A luta é feita por pessoas que querem olhar de cima quando a verdadeira igualdade é hierarquicamente nivelada, com todas as desigualdades que a biologia determinou. Eu não quero uma igualdade que faça de mim um homem no lugar de um homem, tenho um trono só para mim.
And casually confirm my fears that I've got nothing to give:
Não feches a porta, eu não sei o que sobrou. É verdade, o tempo passou por nós e eu não sei se a emoção de ver-te prevalece. O tempo desdobrado no tempo. A história que se construíu e o passado que perdura até aqui. Tu perdeste-te e eu insisto na ideia de que foste tu quem mais perdeu. A magoa não se apaga e nada mata mais que o arrependimento. Hoje sei que há um tempo para amar porque não se pode ressuscitar quem se matou.
O que se leva da vida é a vida que se leva:
A tristeza é como o frio: psicológica.
Porque o frio existe mas quando o sentimos temos de acelerar o passo.
Porque o frio existe mas quando o sentimos temos de acelerar o passo.
Je ne suis pas Charlie - Abuso de expressão:
Se eu quisesse ser extremista, diria que a França tem liberdade até para insultar.
Je ne suis pas Charlie - Uma espécie de contradição:
Morreram doze pessoas, senhores. Doze! A sério que é por isto que o mundo se emociona?
Os americanos invadiram o Iraque, destruíram o Afeganistão. Os extremistas continuam a matar pessoas o tempo todo, sobretudo muçulmanos e não vejo estas ondas de indignação.
Esta história parece o 11 de Setembro. Não vejo este empenho e esta tristeza quando outras pessoas entram noutros países a matar. Quando os jihadistas executaram pessoas no Iraque, não ouvi ninguém dizer "Somos Todos Iraquianos".
Je ne suis pas Charlie - Uma especie de contradição:
Pessoas que se sensibilizam porque a liberdade de expressão não foi respeitada mas que moderam os comentários do blog.
Je ne suis pas Charlie - Uma piada só é piada quando as duas partes acham graça:
Com a mesma força que não entendo o ato terrorista, também não entendo o desrespeito e a xenofobia do jornal. O atentado é condenável mas carece de interpretação.
A França é o país europeu com mais muçulmanos. São mais de 6 milhões. A mesma França que chegou a proibir que as miúdas usassem véu na escola. A mesma França que tem níveis alarmantes de racismo e xenofobia. A mesma França que tinha um jornal que contribuía massiva e obsessivamente para a diferença. Um jornal que provocava de forma obstinada e insistente o direito pela liberdade religiosa.
O ato terrorista é exagerado mas não sei até que ponto é que não poderia ser evitável porque apesar de todas as liberdades, não devemos criar condições que levem fanáticos a cometerem acções reprováveis a todos os níveis.
O ódio não se promove só com tiros e bombas. Bonecos e palavras podem fazer o mesmo porque piadas são um discurso e os discursos levam a acções. A liberdade de expressão não pode ser um caminho para o desrespeito e a sátira não pode esconder a má fé.
Eu não sou Charlie Hebdo porque não sou a favor que a imprensa publique irresponsavelmente. Não sou Charlie porque não concordo com a liberdade de expressão que dá o direito de gozar com uma religião. Não sou Charlie porque representa um humor que em nada beneficia a igualdade. Talvez não seja Charlie porque sou sensata demais para pôr vidas em risco, porque não gosto de ironizar as crenças dos outros. Ou então, é só porque não sei desenhar mas eu não sou Charlie Hebdo.
Que as pessoas possam viver num mundo onde não se cala uma opinião discordante com tiros mas também que não sejam humilhadas gratuitamente em prol do humor ou de uma liberdade que não contempla todos.
Existem por detrás da cal:
Devia ser proibido pensar na morte enquanto se vive. Nós vivemos nesta ambivalência: eu a pensar no teu fim enquanto projeto o meu futuro. Tu a arquitetares a minha vida com a consciência que nunca a verás por inteiro. Quanto mais morres, mais feliz sou e essa é a condição mais pacifica de aceitar porque não me pedes menos que isso.
Um dia vais morrer e eu, que me habituei a ver a morte todos os dias, vou ser apanhada de surpresa. Depois vou achar que devíamos ter passado mais tempo juntas mas é mentira porque ainda hoje me disseste que vivo contigo todos os dias.
Ninguém é quem queria ser:
Reparo nas horas e atraso-me nos segundos. Impedir a felicidade é a forma mais cobarde de ser infeliz. Evito sempre o momento, a espera é um acto demasiado egoísta para quem sabe amar. A verdade pode ser cruel porque consegue ser reescrita e rasurada todos os dias mas é nela que sustento todas as minhas decisões. Saberei eu do espaço que se agiganta entre nós? Interiorizei eu a hipérbole do nosso amor? Será certo que a dor dá lugar a um prazer maior? Ainda não sei se o destino é filho do livre arbítrio ou o seu maior opositor. Não basta dizer o que queremos, temos de acordar todas as forças e atrever todas as vontades e talvez um dia me encontrem nesses sítios que eu ainda não sei que existem porque os fantasmas aparecem para nos lembrarem que a vida é uma puta cara.
Eu sinto ter ainda no meu peito coisas tuas:
Aprendo-me no cansaço. Os dias confundem-se e o presente vive-se em catadupa. Eu não volto aos sítios onde fui feliz mas o futuro desenha-se com os contornos do passado. Dentro do fim que somos há sombras que se movem. A verdade nunca foi tão lúcida e tão presente. Não há fronteiras que me limitem nem mares que me afoguem. Mato a lógica mas és tu quem eu enterro, a inocência de compreender a incongruência das coisas que não sinto. Cedo-me ao eventual destino sem acreditar nele, lembro-me que a sorte aparece para nos apresentar ao azar. Há medos que chegam tarde e segredos a morrerem surdos. Dentro das minhas dores encontro o teu nome. Encontro todas as razões que me prendem. Eu sou um relógio que não pára. Todas as emoções doem. Nunca deixei cair as palavras que guardo para ti mas é dos gestos que vivemos, que não esqueçamos isso.
Homossexualidade - Quando os agressores são vitimas:
Por esconder-se, o sentimento vira preconceito e o amor torna-se refém da própria discriminação.
Eu queria conseguir sair sem cinzas na despedida:
Consenti-me à felicidade. Por nunca se imaginar, a despedida fingiu-se todos os dias. Em cada viagem e em cada regresso. Nos abraços todos que ficaram por dar e nos impulsos desmedidos. Eu quis-nos bem, quis que a vida perdurasse na adrenalina que nos juntava. Nós fomos os lugares comuns na forma e nos gestos. Existimos para além de nós porque a tranquilidade e o caos correm nas margens do mesmo rio. Vivemos sempre à margem, sem procurar o que estava por dentro. Partilhámos o sono e o pão duro, a mais intima das intimidades. Eu dei-me toda à felicidade, consciente de que a eternidade são os momentos, lúcida de que para sempre é o agora a acontecer. Eu assumo as falhas e as loucuras, fui eu quem baixou os braços enquanto bebia do frio. Fui eu quem sentiu o tempo a consumir devagar. Há verdades que nascem vazias. O comboio, quando passa, não apita para mim. É para nós, para sabermos que está a passar. Valemos mais do que a vida quis. Mais do que a felicidade deixou. Valemos pelas verdades que conhecemos e todas as que fizemos nascer.
Tudo quanto fazemos é a cópia imperfeita do que pensámos em fazer:
As expectativas são facilmente defraudáveis. A fantasia deixa-nos imaginar todos os cenários, antever todos os gestos e preparar todos os diálogos. Ignoramos a realidade, como se a ficção abrisse espaço para uma ilusão fácil de comprar. Caminhamos sempre o mais à direita possível, como se a segurança dependesse apenas de nós. Não depende. Há sonhos que só são verdade quando acabam. Abandonar uma ilusão é melhor do que encontrar uma verdade mas mesmo assim, insistimos em acreditar em tudo o que não podemos tocar.
Por baixo de cada coisa há um nome:
Teresa devia ter percebido porque é que a vida se suicidava todos os dias, da mesma maneira que pressentiu que um compromisso podia ser um sacrifício. Na falta de coragem, Teresa perdia o conforto de saber que todos os caminhos eram sem retorno e que, dali para a frente, todo o destino era uma montanha dificil de transpor. Respirar deixava de ser um ato involuntário, Teresa sabia-o. Teresa era dotada dessa consciência exacerbada, de uma resiliência quase inata e de um medo que a induzia à culpabilização. Eram as mãos que agarravam todas as coisas que Teresa não chegava a tocar mas os gestos estavam lá, à vista desarmada, nus de qualquer sentido. Teresa era ridícula de tão submissa, sozinha de tanta companhia, presa de liberdade. Teresa devia ter percebido porque é que o amor é aprendido todos os dias, da mesma maneira que intuiu que a paixão pode cegar qualquer compromisso. Teresa distraia-se da felicidade e, também por isso, odiava-se todos os dias. No deslumbre de cada promessa podem caber milhares de traições. Teresa condensava a culpa e o desejo, o empenho de destruir tudo o que era seu. De tão ridícula ficou sozinha. De tão sozinha tornou-se presa. De tão submissa perdeu a liberdade. Teresa sentia-o, ainda que não o dissesse em voz alta, sabia-o. Teresa devia ter percebido que quando a vida se suicida todos os dias é porque estamos a fazer tudo aquilo que gostaríamos que fizessem por nós. Teresa sabia-o mas nunca o percebeu.
We can live our misbehaviour:
Não tenhas pressa: Os erros vêm ao de cima com a mesma rapidez que as virtudes afundam. Hás-de ter sempre um par de dedos apontados como revolveres carregados. O bem passa e o mal perdura e tu, vais ser sempre o vilão até ao dia da tua morte mas os bons serão sempre aqueles que conseguirão carregar esse peso, sem saber que o suportam. Não tenhas pressa de viver até à minúcia, nenhuma felicidade é feita em alta velocidade porque a memória alimenta-se de momentos que demoraram a esquecer.
Love the silence but don't die of it:
O que mata é o que se sabe mas não se diz. A verdade pode esconder mentiras e nas omissões pode encontrar-se a veracidade do pormenor que, afinal, importa. Não basta ser fidedigno, a autenticidade das palavras não me comove e o silêncio é, muitas e simultaneas vezes, a melhor arma e também a melhor armadura. Quando o que provoca é o mesmo que evita, a única guerra é dentro de nós.
The more you change the less you feel:
Quando acordámos, eu já era outra. A minha avó tem razão, há momentos em que devíamos morrer para nascer outra vez. Conheço-te o corpo mas não te leio o olhar. Sabes o cheiro mas não imaginas o que vai por dentro. Há histórias que começam e acabam ainda de noite, ruas que se desdobram em cima da curva, caminhos que se desbravam de olhos fechados. Ainda não sei se é a falta do medo ou o excesso de coragem, porventura a loucura de viver sem ver o dia mas quando acordámos, eu já era outra e os crimes podiam estar todos por acontecer.
Go straight to hell - Paradoxos de um raciocínio brilhante:
Sempre que nos sentimos ofendidos com um adjetivo é porque estamos a ofender alguém.
Não te canses de mim:
Conheces-me melhor do que aquilo que sei. Mais do que aquilo que mostro. Talvez eu seja o único livro que lês. O único livro que escrevo. Conheces-me porque sou tua como nunca soube ser de mais ninguém. Não me cansarei de ti, contigo sou sempre feliz.
Enquanto durar:
Não quero atrasar o momento nem perdurar nele. Não te nego, ainda que a tua presença não seja sentida. Perdemo-nos num regresso quase imperfeito de tantos atalhos, quase condizente como as palavras que saiem da nossa boca. Já precisei de ti para ser eu com todos os caminhos que percorreste para chegar até mim. Quando os nossos detalhes se apagarem, não restará nada senão o olhar de quem quis ser feliz. Por enquanto, o que nos une continua a ser muito mais do que a felicidade.
Quanto tempo se demora a aprender a liberdade?
Vivemos há quarenta anos em democracia. Historicamente, somos uns adolescentes com a rebeldia toda na venta e umas hormonas aos saltos e, ainda assim, quarenta anos parecem já tanto tempo.
Dizer que já não estamos numa ditadura é uma falácia fácil e estranhamente assustadora. Estou a duas gerações da revolução e, ao mesmo tempo, a ser educada por elas. Pertenço à primeira geração que nasceu já em liberdade mas desta premissa decorre o silogismo de que a partir daqui nascerão os verdadeiros filhos da revolução, com a prerrogativa natural e, ao mesmo tempo, com o desígnio todo da nossa herança cultural.
A infância fez-se mulher e a vida virou recordação:
Tu eras o ideal mais próximo que tinha daquilo que eu gostaria de ser noutra vida. O exemplo vivo de que o destino acaba por levar a cada um aquilo que é seu. Eu olhava-te do alto do meu metro e cinquenta e sabia que a vida, para ti, tinha outro encanto. Tu eras os sonhos todos, as missões impossíveis e os fragmentos de coragem que se juntavam das cinzas. Eu olhava para ti e pensava que talvez um dia, mais ou menos longínquo, pudesse ser como tu. Simples, como a vida. Simples, como se querem todas as coisas. Depois a vida aconteceu como a naturalidade de qualquer fim. Eu cresci e dizem-me que somos iguais.
Um dia havemos de falar sobre isto:
Há sentimentos que nascem para serem amarrados e depois, com o tempo, serem desembrulhados, em doses pequenas. Aqui e ali, cozinhar a lume brando e apagar assim que ferver. É um ditador a tempo inteiro dentro de nós, uma vontade recalcada ou uma cidade a viver sempre em lusco fusco.
Prendo-o mas não o digo. Não digo porque o prendo mas só o prendo porque não o digo. Um ciclo vicioso, a nódoa que não sai daquela camisola mas que teimamos vestir.
Once you're grown up, you can't come back:
O maior medo será crescer, como se o mundo atrasasse toda a infância e a angustia fosse mais forte que o tempo. Ser pequeno para sempre e afirma-lo com a ingenuidade de uma criança e com a consciência verosímil que qualquer adulto pode ter - o paradoxo de um corpo que não caberá na idade que tem.
You had a vision they couldn't see:
E, indubitavelmente, caminhou até ao precipício porque sabia que era ali que a vida começara. A linha ampla e frágil que seguia todo o horizonte que não vira desde então. A presunção do momento, um passo ao lado e tudo a acontecer no limbo porque a vida só fizera sentido assim.
O bom da morte está na vida:
O melhor testamento são as palavras ditas e a melhor herança são as recordações revisitadas.
Aos mundos que chocam, partem e ficam. Tudo resta menos a nostalgia:
O começo é sempre assim; a chuva é agua mas parece diferente, as pessoas falam mas os sons distorcem-se. Aprende-se a respirar e olhamos o mundo com lentes das boas. Não há pó, o entusiasmo realça o cheiro a novo e a vida por onde se caminha é um elixir.
Depois, lentamente, os sítios deixam de ser bem frequentados, os olhos que olham veem o reverso como lupas que maximizam as fissuras e detetam o erro. Os sonhos embrulham-se em planos, os planos transformam-se em utopias e a vida corre em abstrato até ao fim.
Os dias continuam pequenos para tudo o que há a fazer, negas a possibilidade de este ser o momento no qual depende a tua vida. O tempo pos-se feio, logo agora que tu gostarias de começar a reconstruí-lo outra vez.
Hipotecam-se todas as dúvidas, da guerra também hão-de crescer flores.
Quando nada resta e tudo sobra, o começo é assim.
Go straight to hell - Paradoxos de um raciocínio brilhante:
Desistimos com medo de perder. E esquecemos que desistindo, perdemos tudo.
O amor sustenta relações agarrado à esperança que tudo mude:
O amor pode ser um sítio cruel, uma faixa de gaza cheia de militares armados prontos a disparar. Há alturas que o amor é uma falência emocional, um coração e um corpo violados em prol de um ego pequeno demais para negar. Nesta visão absoluta e definitiva, esgotam-se os recursos e a capacidade emocional para resistir. A mágoa partilha-se mas não se devolve, o destino faz equipa com o amor e a história volta a repetir-se numa fatalidade difícil de entender. Na falta de amor buscamos o excesso e vivemos sempre em desequilibro, agarrados à imagem daquilo que nos foram fazendo acreditar.
Saber que o infinito existe e ainda assim nunca chegar-se lá:
Quando for de noite e nós já formos velhos. Se o sol empurrar o tempo e o teu nome vier com sombras. O passado é rescrito e o futuro daqui a milésimos de segundo. A loucura da vida, o frenesim dos dias e um copo meio cheio. Não quero o que me dão e não dou o que é meu. Tenho medo de todos os adjectivos que usas depois de mim. Viver dentro de parêntesis é uma falácia enganadora, é o resto de coisa absolutamente nenhuma. Julgo o tempo e bebo para atrasar todos os momentos. Devoro tudo o que vier a partir daí. Estarás entre todos os desejos submissos e a amplitude de cada olhar. Desarmo-me e sou cruel. Sigo tudo o que vejo e silencio o mundo que fica a sós, comigo.
A meticulosa importância de concretizar cada verso de uma promessa. Desdobras-te para que o espaço chegue. O fosso entre o que se delineou e a realidade que se constata. Hoje não quero ser simples e, se um dia souber escrever sobre a falta que me fazes, terei de falar sobre a idiossincrasia de um laço perverso (que preservo). A clarividência, absoluta e indeterminada. Exceder a dose e intoxicar-te de verdade. A libido inequívoca que se precipita nos contornos impermeáveis da dor. A clemência que contaminou todas as utopias geradas. Parte de mim é o recomeço e instigo-me a rever todos os caminhos. E tu, a consequência das expectativas dissidentes, o desmoronar e o constrangimento que espoletas nos gestos de todos os dias. Tu, a consciência assolada de quem chora e sonha.
Encarcero as memórias e a vida deixa de ser um deslumbre confinado a dualidades opostas.
Quebramos os dois (é quase pecado o que se ignora):
Tu não sabes porque tu não vês. Tu não tens porque tu não dás. Tu vais porque foges. Adeus e até um dia. Adeus, vemo-nos por aí. Eu não toco com medo de partir. Não dou o nó nem desfaço o laço. Eu não digo porque não sinto. Não me despeço porque estou. Bom dia. Olá outra vez.
Tu não estás mas eu estou. Tu não vais mas eu vou. Tu transformas e eu mudo. Tu queimas e eu apago. És de tempos mas eu de compassos. Tu és de marés e eu sou de luas. Eu sou quem parte mas és tu quem se esconde.
Alguém que toca. Outro que foge. Alguém que conquista e outro que seduz. Um que quebra e outro que abre. Um que se despe com o intuito de amar-te. Diz o meu nome, quero-te outra vez.
Da tragédia um pouco maçadora de teres morrido:
A verdade é que a vida continua depois e apesar de tudo. As dores arrumam-se e as memórias vão surgindo intermitentes com a saudade. Há suspiros dentro de um silêncio e um olhar vago porque a vida de todos os dias retoma o seu dia. Engano-me voluntária e conscientemente, faço da tua morte um problema teu, uma mágoa tua. De mim não levaste nada, resigno-me a amar-te porque no dia que morreste eu poderia ter feito tudo, até mesmo esquecer-me de desamar-te.
A Ivone e eu:
Às vezes acobardo-me nesta ideia de pensar que minto-te porque a verdade deixar-te-ia ainda mais triste. Tenho mais jeito para ser tua amiga para o bem do que para o mal. Há dias em que a tua felicidade é um avião com um caminho seguro para casa, é uma gargalhada que herdaste para colmatar uma falta que eu não posso comprar-te nem substituir-te. Nestes dias, em que a minha felicidade não consegue abraçar a tua, eu espero-te com uma inquietude que nunca consigo habituar-me. Eu espero que tu deixes de esperar porque a ilusão é um gatilho preso capaz de matar.
Try a different view, see the line outside of you:
Confundimos as pessoas com as suas causas. As atitudes com os comportamentos. Confundimo-nos no essencial porque o que está à vista não é aquilo que vemos. Confundimos a maternidade com o parto, o sexo com o amor e julgamos sempre que o que vemos é tudo o que está à vista. Confundimos a escola com a educação, o conhecimento com a inteligencia, a justiça com a prisão. O que está à vista não é o que está para ser visto mas confundimos o que já vimos com aquilo que falta ver. Confundimos as partes pelo todo, a guerra com a religião, o poder com a independência. Somos vistos mas queremos ver primeiro. Olhamos mas não vemos. E quando vemos não reparamos. Confundimos o odio com a inveja e os julgamentos com as opiniões. Confundimos os juízos de valor com os preconceitos, a morte com a dor e as palavras com as orações. Confundimo-nos na fé porque a esperança vem primeiro. Confundimo-nos na essência porque o que não se vê vem depois. Confundimos as promessas com os compromissos e as regras com a ética. Não veremos acima de nós porque procuramos as respostas sem sabermos as perguntas. À vista desarmada, o mundo é aquilo que nos permitirmos ver. Sem lentes, sem zoom, sem medidas. Confundimos o erro com o pecado, a urgência com a emergência. Confundimos, na linha ténue dos dias, o infinito com o futuro, o prazer com o gosto porque necessidade e vontade não são iguais. Vivemos de frente para o mundo e ainda assim morreremos sem ver nada. O lusco fusco a confundirmos o dia da noite. O dia aqui e a noite aí, um par de olhos a iludir-nos a vida. Confundimo-nos nos passos, na vertigem de cada decisão e na solidão dos dias. Confundimos o que vemos com o que sentimos porque a realidade está diante de nós mas baralhamo-nos com as emoções à flor da pele. Confundimos o ser com o estar porque a fugacidade do tempo não nos deixa ver para além de nós. Sem metáforas, sem eufemismos, sem pleonasmos. Não te iludas, não te confundas nem caías nesse cliché de pensar que os olhos são o espelho da alma porque eles só apontam o caminho.
Eu acusei-me e defendi-te com unhas e dentes:
A mentira não morre. Há portas que nao se fecham e verdades que nao se abrem. Escondo o jogo porque tenho trunfos que nao me permito mostrar.
Não pedimos o fim, mas não nos importamos se acabar assim:
Não há, como nos filmes, aquele som aterrador do monitor que nos mostra a linha reta e continua (paradoxalmente, o fim, também). Há um silêncio e um arrependimento instintivo e instantâneo, sem paralelismo com nada. É nesse momento que o mundo para. Está ali mas já não está. Foi o melhor mas não foi. Era isto que se queria mas não era. A morte foi a primeira verdade que aprendemos e a mais difícil de assumir quando chegamos ao fim. Vivemos toda uma vida a saber que vamos morrer e quando a morte chega é sempre traiçoeira, desprevenida e devastadora. Há a tristeza com a saudade e a vontade. Foi uma escolha mas já não é apesar da morte não ser escolhida porque é sempre traiçoeira, desprevenida e devastadora.
Used to tell me "sky's the limit", now the sky's our point of view:
Lembrar-me é trazer as memórias à vida. Viver serão sempre as saudades dessas memórias. O limbo estará sempre no extremo das realidades. Tudo é verdade e tudo pode ser caminho.
Isto da vida:
O truque é preocuparmo-nos com a opinião dos outros sem deixarmos de duvidar da nossa.
Whoever doesn't miss Soviet Union has no heart. Whoever wants it back has no brain:
É fácil fazer-se uma guerra. É nestes momentos que prefiro a cobardia à bravura.
Não há heróis na vida real, os que tentam morrem. São os cobardes, que com amor à vida e talvez com medo de morrer, recebem as medalhas. E, talvez as mereçam.
Amor com amor se paga:
Perdi a conta à quantidade de vezes que o disse. Deixei de contar porque a verdade não tem número, é um infinito sereno que me cabe no peito na hora de adormecer.
Insisto nesta certeza que tu me dás à espera da condicionalidade toda que daí advém. Tu sabes muito mais que eu. Soubeste-o muito antes de mim. Os cheiros ficaram na memória e agora é só o amor que nos segura. Tu sabes muito mais que eu. Soubeste-o muito antes de mim mas eu continuo a perder a conta à quantidade de vezes que o disse.
The mother of my mother was my mother too:
The pretty woman, she's my mum
And now the news, don't feel shame
My dear daughter has your name
That god damn bitch of life she made me cry:
Contar até três não chega. Fecho os olhos e volto a abrir. Estamos a pensar no mesmo, é maior que nós porque programaram-nos para ter outro destino qualquer. Não percebemos de finais felizes e o amor tropeça-nos por isso, fechamos os olhos, contamos até três e pedimos mais. Tantas vezes quantas as razões que nos faltam. Perdemo-nos no caminho e deixamos para trás tudo o que não foi repensado. Conto até três, penso duas vezes. Outra vez. Tantas vezes quantas as razões que tenho. Tantas quantas as coisas que não posso escolher. E no fim, deixamo-nos ir porque um dia soubemos tomar conta de nós. Deixamo-nos ir porque o verbo consente tudo. Deixa-me ir porque os vícios desprendem-se do corpo.
Let's grow old together & die at the same time:
Não somos tão bons quanto parecemos nem tão maus quanto pensam. Nunca havemos de ser o que os outros decidirem, nem tão pouco o que queremos ser.
Primos:
Acabaste por ser um resto daquilo que ficou. Uma sobra boa de uma opção da minha vida. Somos os gestos que ficam por fazer e as palavras todas que falamos nas entrelinhas. És quem eu mais quero manter perto porque é agora que a vida começa. Estou aqui.
Beijos, pessoas especiais:
Julgar as atitudes à luz do que sabemos hoje é injusto. Ninguém saiu a ganhar: Eu desisti de mim e vocês desistiram de nós. Acobardámo-nos das nossas decisões porque tínhamos muito a perder e um orgulho difícil de engolir. Fomos o resultado de todas as nossas falhas, a soma dos abraços todos que acabaram por desvanecer-se no tempo. Uma conta difícil para quem deixou de contar os anos que foi feliz. Subtraímos tudo e vemos uma multiplicação de momentos que nos dão a certeza que injusto é julgarmos as nossas atitudes à luz do que sabemos hoje.
Tão bom pudesse o tempo parar:
Raramente tive noção de que estaria a ser tão feliz. Não fui avisada de que poderia sentir saudades e agora tenho um espaço por preencher com momentos e pessoas que já não se repetem. Isto de viver é mesmo fugaz e breve. Eu não penso nisso em dias pares nem impares mas são recordações que chegam em dias que não sei contar. São dias que aparecem sem eu estar à espera porque recebo uma mensagem e daqui a cinco minutos estou sentada num café com vontade de chorar por momentos que não fui avisada sobre as saudades que poderia sentir e ainda assim sinto-as todas ao mesmo tempo, como se estivessem a cobrar-me hoje todas as saudades que não fui sentido. É injusto. Tenho mais saudades que ontem ou amanhã, é um dia que não sei contar, nem par nem impar. Percebi que há pessoas que sentem saudades todos os dias e que vivem embrulhadas nisso, a olhar para as coisas que fizeram e que eu estou no meio das memórias dessas pessoas. Respiro fundo, não quero chorar enquanto sentir nos teus olhos que também foste feliz, apesar das saudades.
A Ivone e eu - Nível de amizade:
Falamos no imperativo uma para a outra.
Dizemos obrigada mas ainda assim não conseguimos pedir desculpa.
Dizemos obrigada mas ainda assim não conseguimos pedir desculpa.
Ainda bem que odeias perder:
Não é por ser português porque nem gosto muito de nós. É por alimentar um sonho com trabalho, pela convicção forte do caminho que quer seguir, pela determinação em cada passo. Tenho muito respeito pelas pessoas que se tornam naquilo que querem ser porque é tão difícil termos vontade o tempo todo. É tão difícil querer muito e sempre a mesma coisa. Existem lesões, um cansaço que a satisfação às vezes não paga, uma adolescência vivida a meio gás e uma vida dedicada a um objectivo pouco provável porque um objectivo decidido aos 12 anos vem com a utopia e o risco inerentes à idade. Não é por ser português, juro! É a minha admiração pelas pessoas que não se perdem. Por aquele que aos 23 e aos 28 anos consegue ser o melhor do mundo naquilo que se propôs fazer quando tinha 12 anos. Por aquele que não tem medo de dizer que é o melhor quando é, verdadeiramente o melhor, mesmo que chore no momento de receber o prémio. A minha admiração é por aquele que aos 12 anos foi para Lisboa por um sonho e hoje continua a ser só um miúdo a querer jogar à bola.
(Pseudo)intelectuais:
Gente que apoia a cultura por causa dos teatros e coisas chiques mas que não percebe o valor de uma novela.
O negócio da amizade é perverso:
As pessoas não querem a verdade, querem aquilo que estão à espera de ouvir.
No mundo que somos por dentro:
Vais ler tanta coisa. Vais achar que sabes tudo e que estás preparado para qualquer corrida. Hás-de ouvir mil histórias e encontrar a tua própria verdade. Hás-de ser um em mil mas nunca vais sentir-te mais um porque reduzirmo-nos é um erro demasiado grave para quem sabe tanto. O peito enche-se de ar e sonhos, engoles um ou outro orgulho porque a vida obrigam-nos a isso se quisermos avançar e pões os restos dos dias para trás das costas. Farás com que amanhã seja cada vez melhor, hás-de viver nessa ilusão e a utopia será a sombra que fica depois do amanhecer. E vais chegar ao fim com a serenidade que tu foste o melhor que conseguiste ser.
Amizade, uma espécie de definição:
Capacidade de estar com alguém mesmo quando queríamos estar noutro sítio qualquer
Tudo muda. Tudo parte. Tudo tem o seu avesso:
Não desejo nada de bom nem de mau relativamente ao ano novo. Eu sou assim nesta altura do ano.
Te echo de menos:
Já não sei se esperar é um ato de coragem. Não sei se o que sobra é amor ou um instinto de sobrevivência muito apurado. O tempo faz-nos velhos e é por isso que toda a gente foge dele. A vida morre, as pessoas mudam mas o tempo nunca acaba. O cabrão do tempo que faz-nos mudar de planos, que adia a nossa vida porque o momento ainda não é o certo. Esse gajo despersonificado que faz-nos ouvir pedidos de desculpa pelos atrasos. E eu espero sem saber de que espera sou feita. Espero porque há dias que tenho tempo para esperar. Espero porque o mundo é tão pequeno e há tanta gente. Tanta gente a levar tristezas dentro. E esperas. E alegrias. Tanta gente num mundo tão pequeno à espera de tanta gente. Esperamos uns pelos outros e pode acontecer aparecer-nos alguém melhor do que aquilo que esperávamos. Pode acontecer que nesse ato solitário (ou corajoso?) de esperar possamos refazer-nos e mudar também aquilo pelo qual esperamos. E então, nesse momento, já não esperamos por aquele que nos fez esperar mas por este que nos diz que há-de chegar. E esperamos porque o tempo faz-nos velhos e nós não o queremos apanhar. Foge dele.
Da psicanálise:
Confundiram o meu ato falhado por uma falha de atenção e, no entanto, não esqueço que isto foi uma manifestação reprimida.
Eu sou Deus:
Isto de ter uma grande auto-confiança não é o resultado de muitos sucessos. É uma certeza muito evidente de que serei sempre a primeira e última pessoa com quem posso realmente contar. É saber que o meu corpo não se há-de separar de mim. É ter noção de que, aconteça o que acontecer, nunca deverei satisfações a ninguém senão a mim.
No fundo, isto de ter uma grande auto-confiança resulta de um fracasso e de uma habilidade parca de acreditar que serei boa o suficiente para manter os outros comigo o tempo todo.
Ser bombeiro no inverno:
Poucos conhecem o desespero. É uma coisa tão forte que eu espero que poucos o tenham visto. O desespero e a angustia têm muita força. Não há desespero nenhum na morte em si. Não é desesperante morrer-se numa cama ou numa sala de operações. O desespero cresce pela dor que vemos sentir à nossa frente.
O desespero vem do sangue. Na bala que ficou dentro do corpo. De alguém que nos pede para morrer. O desespero vem dos gritos. Em pais que pedem milagres. Nas costelas partirem debaixo das mãos durante uma reanimação. O desespero vem das palavras. Das más e das feias, mesmo quando as últimas são sempre de amor. No desespero também há amor. Camuflado, escondido mas o amor continua lá. O desespero é a violência. É um corpo sujo de nódoas negras. É uma corda ao pescoço e nada mais a fazer. É o choro dos outros e nada mais a fazer. O desespero da negação quando já não há nada a fazer. É no início da vida já existir uma sentença de morte. O desespero é quase sempre o fim. O desespero é pegar na caçadeira e matar o melhor amigo por causa de um jogo de futebol. É estar no mesmo metro quadrado com alguém que matou outra pessoa minutos antes. O desespero é à beira da morte recusar uma ida ao hospital porque não temos dinheiro para pagar o regresso a casa.
Poucos conhecem o desespero como os bombeiros conhecem. Mais do que isso, poucos têm noção do desespero que os bombeiros conseguem ver. Ninguém sai de um serviço a olhar o mundo da mesma maneira porque o desespero está lá. E é no desespero que ligam a pedir ajuda, é no desespero que aparecem, é com o desespero que lidam e é o desespero que levam para casa.
É por isso que todos podem ser bombeiros mas poucos aparecem por lá.
5 de Dezembro:
Nunca te esqueço. Estás entre os dias mais importantes e os mais bonitos da minha vida.
Hei-de ser sempre uma parte de ti. Que estranha, esta sensação de ver-te chegar e, ainda hoje, conseguir voltar a sentir tudo o que senti há uns anos.
5 de Dezembro, trato-te como pessoa e tirava dez anos da minha vida para ver-te outra vez. Sei que não voltas e ao mesmo tempo continuas por aqui.
Obrigada pelas memórias.
Hei-de ser sempre uma parte de ti. Que estranha, esta sensação de ver-te chegar e, ainda hoje, conseguir voltar a sentir tudo o que senti há uns anos.
5 de Dezembro, trato-te como pessoa e tirava dez anos da minha vida para ver-te outra vez. Sei que não voltas e ao mesmo tempo continuas por aqui.
Obrigada pelas memórias.
O método do dedo no ar devia ter alternativa:
Apontar não é feio e apontar para o céu tem uma dimensão simbólica bonita mas a questão é: pormos o dedo no ar, independentemente daquilo que não temos para dizer e quando, no fundo, está em causa quem é que foi o primeiro a por o dedo no ar e não tanto o que se distingue pela diferença das respostas.
É isso, estamos a criar pequenos narcisistas ao invés gente autentica.
Atitude:
Há momentos nas nossas vidas que mudam tudo. São o rastilho daquilo que vai desenhar o que seremos a partir dali. Não são os traumas, é o que nos dizem e guardamos para sempre. São as memórias que persistem, um resto qualquer que nunca se esquece.
De alegria e de tristeza cada um tem um pedaço que é o seu:
Muda o angulo e mantém as circunstâncias: Vê-te pelos teus olhos nos comportamentos dos outros.
Isto do amor:
Escrevi sobre a Bárbara e o Carilho, porque isto do amor dos outros não me diz respeito mas quando essa história entra pelo computador e pela televisão em horário nobre tenho uma opinião.
Escrevi tudo e depois conti-me para não publicar porque deve haver sempre uma distância prudente entre aquilo que pensamos sobre a vida dos outros e sobre a nossa própria vida.
Escrevi tudo e depois conti-me para não publicar porque deve haver sempre uma distância prudente entre aquilo que pensamos sobre a vida dos outros e sobre a nossa própria vida.
Somos todos iguais mas alguns são mais iguais que outros:
É ver grupos de pessoas a abanar bandeiras, a elevar a voz e a fazer marchas por uma causa que defendem porque ora sentem-se discriminados, ora ninguém os respeita.
Querem fazer-se ouvir tão alto que ofendem na mesma proporção.
São os que levantam a voz contra o racismo, porque a cor não nos define, mas que rejeitam a classe política, como se uma profissão definisse alguém.
São os que levantam a voz contra a homofobia, porque a orientação sexual não nos define, mas que rejeitam e rotulam quem ouve música comercial e vê reality shows, como se a arte e o entretenimento definissem alguém.
São os que levantam a voz a favor dos animais, porque afinal alguém tem de falar por aqueles que não conseguem, mas que são a favor da pena de morte e a calar alguém para sempre.
São os que levantam a voz contra a corrupção, porque as pessoas querem-se sérias, mas que fazem downloads ilegais, prejudicando diretamente os artistas.
São os que levantam a voz conta a pobreza, porque há tanta gente a passar mal por este mundo, mas que nunca perderam um minuto a falar com um sem abrigo.
São os que dizem, de peito cheio, que o mundo é um sitio de gente má, mas que nunca ponderaram fazer nenhum tipo de actividade social.
Somos todos muito bons a defender o nosso metro quadrado. Temos os moralismos todos estudados. Defendemos o bem e, se alguém ousar contrariar-nos, temos uma mão cheia de ofensas e uns olhos tapados a tudo o resto. E depois, temos esta falta de empatia assustadora uns pelos outros e eu fico sempre surpreendida como somos capazes de defender tanto a democracia.
Ai, este mundo:
Os homens serão sempre razoavelmente básicos, porque são violentos e as mulheres incontornávelmente as suas vítimas.
Dois e dois são quatro:
As pessoas só respondem a duas emoções: O medo e o amor.
Quando nos afastamos de uma, começamos a caminhar para a outra.
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